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Grace Liu

Grace e a Vizinha do Prédio

Romance lésbicoQueer12 min de leitura

Um conto de Grace Liu

No mesmo andar, Sofia cansa-se dos sorrisos de corredor. Grace Liu entra-lhe em casa. As duas vizinhas deixam a porta mal fechada.

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O outono em Lisboa chega cedo ao mármore do patamar, com um cheiro a humidade e a folhas molhadas que sobe pela caixa da escada e se agarra à lã dos casacos. A lâmpada do tecto oscilava com aquele amarelo cansado que nunca chega a aquecer pedra nenhuma, e o corrimão de ferro ainda trazia o frio da tarde colado à palma. Estava à porta dela porque o volume da música tinha atravessado a parede outra vez e o texto que tinha de entregar ao nascer do dia pedia um silêncio que o prédio se recusava a dar. Tinha batido duas vezes, o casaco ainda vestido, a irritação presa à nuca, pronta a exigir auscultadores ou uma hora decente, qualquer coisa que me devolvesse as páginas que me faltavam. Quando o elevador abriu, Grace Liu apareceu com o cabelo preso, o fato de treino colado às coxas e o telemóvel na mão, o ecrã aceso numa conversa que ela não acabava de responder. A testa brilhava-lhe de suor. A gola estava húmida na curva do pescoço e a respiração vinha-lhe curta, como se tivesse subido os andares a pé só para não esperar. Tinha vinte e dois anos e um sorriso de corredor que já me cumprimentava há semanas como se o resto da frase fosse chegar mais tarde. Desta vez o sorriso falhou. Olhou para o ecrã, para mim, outra vez para o ecrã, e trancou o telemóvel sem escrever nada.

O polegar ficou-lhe pousado no vidro apagado, indeciso, a traçar um círculo que não ia a lado nenhum. «A Marta outra vez?» perguntei, e o nome saiu mais seco do que pretendia, porque o que me tinha trazido ali era o baixo a tremer-me nos ossos e não a vida dela. Grace encostou o ombro à ombreira, ainda a recuperar o fôlego da academia, e o cheiro a pele quente misturou-se com o do outono. Havia champô barato no cabelo preso e, por baixo disso, o sal do exercício, tão próximo que me fez esquecer a frase ensaiada. Olhou-me de baixo, os cílios ainda húmidos, a boca entreaberta. «Não é nada que não possa esperar», disse ela, e o convite curto ficou no ar entre nós, brilhante e incompleto. Não pediu desculpa pelo volume. Não perguntou se o texto ia sair. Limitou-se a ficar ali, o ombro na madeira, como se o corredor tivesse deixado de ser um sítio de passagem. A porta do apartamento dela ficou mal puxada, um palmo de luz quente a rasgar o patamar, e o elevador já tinha descido. Ficámos as duas no mesmo andar, frente a frente, e o que estava em jogo não era o volume. Era o facto de eu ter atravessado o corredor e de ela não ter fechado a porta.


Não a deixei entrar. Empurrei-a contra a madeira ainda entreaberta e meti-lhe a mão dentro das calças de treino, por cima das cuecas já quentes, e senti a cona dela inchada e molhada como se o caminho até aqui tivesse sido uma longa espera. O corpo cedeu logo, as costas a baterem na porta com um som surdo, e um arfar curto escapou-lhe do peito antes de qualquer palavra. O elástico cedeu-me sem luta e o calor vinha-lhe já das coxas, irregular, a pulsar contra a palma. Grace abriu a boca para protestar e tapei-lha com a outra mão, os dedos a premirem-lhe os lábios, e ela gemeu contra a palma com um som que qualquer vizinho reconheceria se saísse agora do elevador. Os dentes roçaram-me a pele. Os olhos dela procuraram os meus, escuros, sem recuo, e a língua tocou-me a palma como se quisesse provar o gosto da ordem. Os meus dedos afastaram o tecido e encontraram-lhe o clitóris já duro, escorregadio, e esfreguei-o em círculos curtos enquanto a encostava mais à porta, a coxa a abrir-lhe as pernas, o pulso a trabalhar contra o elástico das cuecas. Cada círculo fazia-lhe tremer a barriga por baixo do fato. O gémeo que tentava sair ficava preso nos meus dedos, húmido, quase um pedido.

«Se fizeres barulho, alguém desce», murmurei-lhe ao ouvido, e o corpo dela respondeu com um arrepio que não era medo. Queria aquilo. A respiração batia-me no pulso. O cabelo preso desfez-se um pouco na nuca e o suor escorria-lhe pela têmpora até à linha da mandíbula. Empurrava o rabo contra a minha anca e molhava-me os dedos até ao meio da palma, a cona a abrir-se à medida que eu lhe metia dois dedos de uma vez e os enterrava até ao fundo, o polegar a premir-lhe o clitóris por fora. Os músculos fecharam-se-me à volta com uma força que me doeu o pulso, quente, irregular, e ela empurrou-se contra a mão como se quisesse mais fundo ainda, ali, com a porta a ranger. A porta rangeu. Um andar acima ouviu-se uma televisão. Uma risada gravada atravessou o betão, longínqua, e Grace fechou os olhos um instante antes de os abrir outra vez, a pedir-me sem voz que não parasse. Grace cravou as unhas no meu pulso e veio-se assim, de pé, no patamar, com a boca tapada e os olhos muito abertos, a cona a apertar-me os dedos numa sequência de spasmos que lhe tremeu as coxas e lhe fez escorrer o líquido até ao pulso. As pernas falharam-lhe. Tive de a segurar pela cintura com o antebraço, os dedos ainda dentro, a sentir cada aperto até ao último. Segurei-a enquanto o orgasmo a atravessava, sem tirar a mão de dentro, e só a soltei quando o elevador voltou a cantar no fundo da caixa. Empurrei a porta com o ombro. Empurrei-a a ela para dentro.


A sala cheirava a incenso barato e a fruta demasiado madura. Havia uma tigela no aparador com pêssegos moles e uma vela a arder baixo, a luz a tremer na parede por cima do sofá. Grace ainda tremia quando a fiz ajoelhar no tapete e me baixei o suficiente para lhe puxar as calças e as cuecas até aos joelhos, o tecido preso nas canelas, a cona à mostra, vermelha e brilhante. Os joelhos dela afundaram-se no tapete gasto. As mãos pousaram-se nas minhas coxas, indecisas, e o cabelo preso caiu-lhe ainda mais sobre a nuca quando baixei a cabeça para a olhar. Despi-me o suficiente para o que queria. O ar da sala tocou-me a pele descoberta e o calor dela subiu-me logo pelas pernas. Sentei-me-lhe na cara com o rabo virado para a testa dela, as coxas a fecharem-lhe as orelhas, e agarrei-lhe o cabelo com as duas mãos. «Lambe-me o cu», disse, e a voz saiu baixa porque o prédio tinha ouvidos e porque eu queria senti-la a obedecer mais do que a ouvir-me. A língua dela encontrou-me o cu no mesmo instante, quente, húmida, a traçar o anel com uma lentidão que me fez fechar os olhos. Empurrei-me contra a boca dela até sentir o nariz na cona e o queixo no períneo, e balancei-me devagar, a usar-lhe a cara, a molhar-lhe a testa e as pestanas.

Grace lambeu-me o cu como se tivesse esperado por aquela ordem há mais tempo do que o corredor permitia admitir. Um gemido baixo saiu-lhe da garganta e morreu contra a minha pele. A língua entrou-me um pouco, o suficiente para me abrir, e depois desceu-me à cona e chupou-me os lábios com um som obsceno que a sala devolveu. O som ficou preso entre as coxas e o tapete. Puxei-lhe o cabelo. «Outra vez o cu. Mais fundo.» Ela obedeceu, e o prazer subiu-me pelas costas numa onda suja, o clitóris a bater-lhe na testa cada vez que eu me sentava com mais peso. A obediência dela tinha um ritmo, quase uma fome, e cada vez que a língua voltava ao anel o corpo inteiro me respondia com um arrepio que me fechava a garganta. As mãos dela agarraram-me as coxas. As unhas entraram-me na carne. Continuei a foder-lhe a boca com o rabo e a cona, sem pressa, até as pernas me tremerem e ter de me apoiar ao sofá para não cair. O gosto dela misturava-se com o meu no ar quente da sala, e o incenso já não tapava nada. Quando me levantei, o queixo dela estava um desastre brilhante e os olhos pediam-me que não parasse. A boca ficou-lhe entreaberta, a respirar contra o meu joelho, à espera da ordem seguinte.


Levei-a para a cozinha porque a mesa era mais baixa e a luz do candeeiro deixava ver tudo. O lino do chão estava frio e o frigorífico zumbia baixo, um som doméstico que tornava o resto ainda mais claro. Deitei-a de costas no chão frio, entre o frigorífico e o armário dos copos, e abri-lhe as pernas com os joelhos. A cona estava tão inchada que os lábios se abriam sozinhos. O facto de treino ainda lhe prendia as canelas e isso deixava-a ainda mais exposta, as coxas abertas, o peito a subir depressa debaixo do tecido húmido. Bati-lhe nela com a palma, um estalo húmido que a fez arquear as costas e soltar um gemido curto, quase um convite. A palma ficou-me quente. Bati-lhe outra vez, mais fundo, os dedos a apanharem-lhe o clitóris no regresso, e Grace segurou-se à perna da mesa e abriu mais as coxas em vez de as fechar. «Outra», pediu ela, a frase pequena e clara, e dei-lhe outra, e outra, até a cona ficar vermelha e a pingar para o lino do chão. «Mais», disse ela, a voz já sem o sorriso de corredor, só o pedido. O estalo seguinte fez-lhe fechar os olhos e abrir a boca, e o líquido escorreu-lhe pela curva da coxa até ao chão, brilhante sob a luz amarela.

O consolador estava na gaveta onde eu o tinha visto numa visita qualquer, num daqueles sorrisos de corredor que já não me chegavam. O silicone pesou-me na mão, já conhecido, e o cheiro da gaveta misturou-se com o dela. Lubrifiquei-o com o que ela já tinha feito e enfiei-lho de uma vez, até ao fundo, e o corpo dela recebeu-o com um soluço que lhe tremeu o peito. Fodi-a assim, de joelhos entre as pernas dela, o brinquedo a sair brilhante e a entrar outra vez, o polegar no clitóris, o outro pulso a premir-lhe a barriga para ela sentir o volume por dentro. Cada embate fazia-lhe bater a cabeça de leve no chão. As mãos procuraram-me o cabelo, os ombros, qualquer sítio onde se agarrar. Grace veio-se a primeira vez com um grito engolido, as coxas a fecharem-se-me nos flancos, a cona a puxar o consolador para dentro em cubos de músculo. Não parei. Continuei a foder-lhe o orgasmo até ele se transformar noutro, mais fundo, e ela chorou um pouco sem pedir que parasse, as mãos no meu cabelo, a boca aberta contra o meu ombro. As lágrimas escorreram-lhe para a orelha. O choro não pedia trégua. Pedia que ficasse.


Ficámos no chão da cozinha com o consolador ainda dentro dela, os dois a respirar o mesmo ar quente. O frigorífico zumbia. Uma gota escorreu-lhe da têmpora até ao cabelo solto. Passei o polegar pelo anel de bijuteria que ela trazia no dedo anelar, aquele metal claro que eu já tinha notado no elevador semanas antes, e Grace segurou-me o pulso. A voz alongou-se só quando falou de outra pessoa, como se o quarto precisasse de mais gente para ela se explicar. «A Helena pôs-me isto na primeira noite e riu-se. Disse que ficava bem. Toda a gente diz que fico bem. Toda a gente me mete numa sala e depois manda-me para a seguinte.» Calou-se. Os dedos apertaram-me o pulso com uma força pequena, quase tímida, e o anel bateu-me na pele. Empurrei o consolador até ao fundo outra vez, devagar, e ela arqueou-se e falou mais baixo, para mim, sem convite nenhum. «Quero que alguém me fique a ter. Não que me convidem para mais uma sala.» A frase saiu-lhe rouca, e os olhos não se desviaram.

A frase caiu entre nós com o peso de uma coisa que ela não costumava dizer. Continuei a foder-lhe a cona com o brinquedo, agora mais lento, a deixar-lhe tempo para sentir cada centímetro, e beijei-lhe a boca para ela não voltar atrás. O beijo soube a sal e a fruta demasiado madura. O segundo orgasmo veio-lhe assim, deitada no chão frio, a confessar o que queria enquanto a cona se fechava à volta do silicone e as unhas me riscavam os ombros. Segurei-lhe a cara. Olhei-lhe para os olhos enquanto se vinha, para ela não poder fingir que tinha falado de outra. A boca abriu-se-lhe sem som. As coxas tremeram-me contra os flancos até o último aperto. Quando acabou, tirou-me o consolador com a mão trémula e levou-o à boca, a limpar-se a si própria com uma obediência que me apertou a garganta. Os lábios fecharam-se no silicone com um cuidado quase cerimonioso, e os olhos ficaram nos meus enquanto limpava o que a cozinha tinha visto.


Pus-me de joelhos sobre o peito dela e abri-lhe a boca com os polegares. A cona doía-me de tanto a ter usado contra a cara dela, e agora queria acabar-lhe na língua. O peito dela subia depressa debaixo dos meus joelhos, quente, irregular. Grace segurou-me as coxas e puxou-me para baixo, e eu fodi-lhe a boca com a cona até o clitóris bater-lhe nos dentes, o líquido a escorrer-lhe pelo queixo abaixo, as mãos dela no meu rabo a pedirem mais peso. A língua dela trabalhou com uma fome que já não pedia instrução. Vim-me-lhe na boca com um gemido que não consegui engolir, as coxas a tremerem-lhe nas orelhas, e ela engoliu o que pôde e deixou o resto brilhar-lhe nos lábios como se aquilo fosse o único sim que eu estava disposta a dar. Desci-lhe o corpo. Beijei-lhe a boca suja. O sabor misturado ficou-nos nas línguas. O beijo alongou-se até a respiração acalmar, e o anel dela tocou-me a mandíbula quando a mão subiu para me prender o cabelo.

«Não quero namoro», disse, e a frase ficou no sítio certo, sem desculpa à volta. Grace olhou-me como se tivesse ouvido outra coisa e depois sorriu aquele sorriso curto que no corredor sempre parecia um convite. «Então o que queres, Sofia?» A pergunta ficou-lhe na boca ainda húmida, e os olhos não pediam ternura, pediam uma regra. A minha resposta foi levantar-me e ir buscar o envelope que tinha deixado em cima do frigorífico, um cartão grosso com a data de sábado e os nomes de duas mulheres que iam assinar na conservatória. O papel cheirava a tinta nova. Pus o convite na mesa, ao lado da tigela de fruta. «Sou testemunha. Falta gente que saiba estar numa sala sem a transformar numa fotografia. A criadora de conteúdo faria falta.» Grace leu o cartão sem o pegar, o anel a bater de leve no tampo, e não disse sim nem não. Os lábios mexeram-se uma vez, sem som, e o polegar ficou-lhe pousado na data como se o sábado pudesse ainda mudar de sítio.


Acompanhei-a até à porta com o fato de treino outra vez no sítio e o cabelo solto. As calças subiram-lhe com dificuldade sobre as coxas ainda húmidas, e ela puxou o elástico com um gesto pequeno, quase tímido, como se o corredor pudesse adivinhar o que a cozinha tinha feito. No patamar a luz amarela continuava a falhar o aquecimento do mármore e o prédio respirava atrás das portas fechadas. O cheiro a folhas molhadas voltou a subir pela caixa da escada, misturado agora com o dela. Segurei-lhe a mão, beijei-lhe o anel na junta dos dedos, o metal frio contra a boca, e mandei-a ir com um aceno que não pedia que voltasse a atravessar o corredor aquela noite. Os dedos dela apertaram-me os meus um segundo a mais do que a despedida pedia. Grace ficou no corredor com o convite nas duas mãos, o ecrã do telemóvel outra vez aceso e outra vez ignorado, o anel a brilhar sob a lâmpada que nunca aquecia. Fechei a porta até ao estalo. Através da madeira ouvi-a respirar do outro lado, ainda ali, o cartão de sábado a amarrotar-se um pouco entre os dedos, e o silêncio que se seguiu não me deu a resposta que ela tinha vindo pedir.