
Rosa Amarrada Depois da Briga
Contos bondage após brigaBDSM12 min de leitura
Um conto de Rosa Fernandez
Rosa e Tomás brigam num apartamento em Lisboa por um trabalho que ela escondeu. A porta quase fecha para sempre. Ela volta e pede para ser amarrada ainda zangada.
O calor de Lisboa não largava o quarto andar nem depois das onze. As janelas do apartamento estavam abertas para o Príncipe Real e a rua ainda falava baixo, um elétrico a ranger ao longe, uma mesa a ser arrumada no café da esquina com o tilintar atrasado da loiça. O ar parava dentro de casa, grosso, imóvel, e o algodão da camisa colava-se-me às omoplatas sem que tivesse saído do sítio.
Abri o portátil que Rosa tinha deixado na mesa da sala, porque o carregador se tinha encravado no meu e só precisava de corrente, e o ecrã acendeu com a caixa de correio à frente, sem pedir licença a ninguém. O e-mail da marca estava no topo, já respondido, com datas de entrega e uma lista do que queriam que ela filmasse: a boca a trabalhar o produto, as mãos a percorrerem o corpo, a cama como cenário de um desejo feito para ser visto. Li aquilo uma vez e depois outra, mais devagar, e o estômago fechou-se-me como se alguém tivesse entrado no quarto sem bater. Na mala encostada à parede, o material de filmagem já estava arrumado com um cuidado que me fez fechar a tampa depressa demais, com um estalido seco que a sala devolveu.
Rosa saiu da casa de banho a secar as mãos no peito da camisa que era minha. O cabelo castanho escuro caía-lhe húmido sobre os ombros e os olhos cor de avelã procuraram-me antes de verem o portátil. A camisa, ainda quente do corpo dela, marcava-lhe os seios e o recorte das ancas, e o cheiro a sabão da casa de banho misturava-se com o verão que vinha da rua. Tinha vinte e quatro anos e naquela hora a idade não lhe pesava; pesava-me a mim o que tinha acabado de ler.
«O que foi?» perguntou, e a frase ainda vinha quente, lenta, até a boca se lhe fechar.
Fiquei de pé junto à mesa, a tampa ainda quente debaixo da palma.
«Respondeste ao e-mail.» Não levantei a voz. «Ainda no fim da viagem isto estava por abrir, e agora já tem calendário e datas e uma lista.»
Ela parou no meio da sala, descalça, e o calor colava-lhe a camisa à pele. Via-se-lhe o pulso a bater na garganta.
«Sou modelo, Tomás. Não sou mulher de protocolo. A marca paga-me para parecer desejada, e isso é o meu trabalho.»
«Aquilo não era conteúdo.» A palavra saiu-me mais dura do que a sala pedia. «A corda também não. O colar também não. Disseste que isto ficava entre nós.»
Rosa riu-se sem graça, um som curto que morreu no peito, e avançou dois passos até ficar perto demais para se fingir que o e-mail era só papel. O calor dela chegou-me antes da voz.
«Lá em casa ninguém me pedia para ser educada quando estava zangada. Não me vens agora inventar regras para o que eu faço com a cara.»
A discussão subiu depressa, como o calor que não saía dos tectos. As vozes encheram a sala sem que nenhum dos dois as baixasse. Rosa disse que eu queria uma mulher quieta para ter em casa, uma coisa mansa a abrir a porta ao fim do dia, e respondi-lhe que não queria uma página, queria-a a ela, e a distinção soou a insulto na boca de ambos. As palavras bateram nas paredes e voltaram maiores, cada uma a puxar a seguinte.
Rosa virou as costas à mesa e procurou as calças onde as tinha deixado. Vestiu-as à pressa, o fecho a emperrar-lhe nos dedos ainda húmidos, e só depois agarrou nas chaves em cima do aparador. A porta abriu-se com uma violência que fez tremer o vidro da bandeira. Ficou no patamar, de costas, a respirar alto, e a folha de madeira quase fechou para sempre naquele vão de luz amarela do corredor.
Voltou porque quis. Entrou, fechou com cuidado, e encostou-se à madeira como se o apartamento lhe tivesse pedido desculpa. Os olhos estavam feios de raiva e húmidos sem choro. O peito subia-lhe depressa debaixo da camisa.
«Ata-me.» A frase veio sem doçura. «Ainda estou zangada. Não quero fazer as pazes. Quero a corda e quero que me uses assim.»
Fui ao quarto buscar a corda que ela conhecia e o colar de cabedal fino que ela não podia fotografar. A corda estava no sítio de sempre, enrolada no fundo da gaveta, e o cabedal cheirava a pele e a arrumo fechado. Parei à frente dela, na sala, e falei baixo o suficiente para a rua não ouvir.
«A palavra é mármore. Dizes e paro.»
Rosa olhou-me de frente e não a disse. As mãos ainda lhe tremiam de fúria quando despiu a camisa e a deixou cair. As calças seguiram para o chão sem que as dobrasse, e foi à frente até à cama como quem não pede licença ao próprio corpo. A luz do candeeiro apanhava-lhe os seios, a linha da barriga, o triângulo escuro entre as pernas, e nada naquela mulher pedia desculpa.
Deitei-a de costas sobre o colchão. A corda estava macia de tanto uso e mesmo assim justa quando lhe atei os pulsos à cabeceira, o bastante para ela sentir o nó cada vez que puxasse. As coxas abriram-se sem convite e a cona já estava molhada, brilhante na luz amarela, e isso irritou-me tanto quanto me acendeu. Passei-lhe o colar ao pescoço e apertei a fivela no furo que ela conhecia. A garganta moveu-se-lhe por baixo do cabedal, um engolir curto, visível.
«Não me deixes ficar bonita nisto», disse ela, a voz cortada. «Se me falares como se já tivéssemos feito as pazes, mordo-te.»
A primeira palmada no rabo soou alta no quarto quente. Rosa arqueou-se contra a corda e soltou um som que não era gemido nem insulto, os dentes cerrados, a carne a vermelhar depressa sob a palma. A pele dela era quente e macia e a mão formigou-me logo. Bati-lhe outra vez, mais fundo, e o tremor subiu-lhe até à anca. Continuei até a pele arder debaixo dos dedos e ela puxar os pulsos com força suficiente para a cabeceira ranger contra a parede.
Entre as pancadas meti-lhe dois dedos na cona e achei-a estreita e encharcada, a contrair-se à volta deles como se quisesse e odiasse a mesma coisa. Os dedos saíram-me brilhantes e o cheiro dela subiu-me à cara, a sal, a noite quente, a raiva.
«Puta zangada», disse-lhe, e a palavra caiu no sítio certo porque ela empurrou os dedos para dentro em vez de os recusar. «Isto não vai para lado nenhum. Ninguém te vê. Ninguém te aplaude.»
«Não sou inventário», cuspiu ela, e a frase partiu-se quando lhe bati outra vez, desta feita na parte de dentro da coxa, perto o bastante da cona para ela dar um salto. «Não me reduzas a uma pose, Tomás. Eu trabalho. Eu...»
Tapei-lhe a boca com a mão livre o tempo de lhe dar três palmadas seguidas no rabo, fortes, sem teatro. Quando tirei os dedos da cona, eles brilhavam. Passei-lhos pelos lábios e ela lambeu-os com raiva, os olhos pregados nos meus, o colar a marcar-lhe a garganta cada vez que engolia. A pele do rabo estava quente, vermelha, e voltei a bater-lhe até as lágrimas lhe nascerem sem pedirem desculpa, até o queixo lhe tremer de uma coisa que não era paz. Cada pancada fazia-lhe a cona mover-se, molhada, e ela não pedia para parar.
«Ainda estás a discutir», disse, e ela acenou com a cabeça contra a almofada, teimosa, encharcada, a cona a piscar cada vez que a mão descia.
Desatei-lhe um pulso só o bastante para a virar de lado e lhe puxar a cabeça para a beira da cama. O cabelo caiu-lhe para a frente e a boca abriu-se-lhe já antes de a tocar. Abri o cinto, baixei as calças e pus-lhe o pau na boca sem lhe pedir a versão mansa daquilo. Rosa abriu-se à força e depois de propósito, a língua pesada, a saliva a escorrer-lhe pelo queixo até ao colar. O calor da boca foi imediato, apertado, e os dentes roçaram-me de propósito. Enfiei-lhe até sentir a garganta fechar-se e retive-a ali, o cabelo preso no punho, enquanto ela resfolegava pelo nariz e me olhava de baixo com uma fúria que não pedia para eu sair.
Fodi-lhe a boca com a mesma raiva que ela tinha trazido do patamar, fundo, irregular, e ela engasgou-se e voltou, as unhas cravadas no lençol, um fio de baba a ligar-lhe o lábio ao pau cada vez que recuava. A garganta apertava-me e largava-me e apertava outra vez.
«Isto também ia para o ecrã?» A pergunta saiu feia, e ela tentou falar com a boca cheia e só conseguiu um som húmido que me fez meter mais.
Quando a retirei, um fio uniu-nos ainda. Rosa tossiu, virou a cara contra o colchão e disse, rouca:
«Fode-me. Não me consoles. Não me peças para rir disto.»
Atei-lhe de novo o pulso e desci-lhe pelo corpo com a boca, e lambi-lhe a cona aberta, o clitóris duro, o gosto a sal e a noite. Estava tão molhada que a língua deslizava sem esforço, e ela empurrou a anca contra a cara e insultou-me baixinho em duas línguas, nenhuma delas doce. Chupei-a até as pernas lhe tremerem, até estar à beira, e parei de propósito. O grito que ela soltou não tinha graça nenhuma.
Desatei-a da cama para a atar à cadeira da secretária, os pulsos atrás do encosto, os tornozelos presos às pernas de madeira, as coxas abertas para o quarto inteiro. Rosa ficou sentada nua, o rabo a arder contra o assento, o colar direito. Os seios erguiam-se-lhe de tanto puxar o peito para respirar. A cona reluzia-lhe, aberta, e ela ainda tinha a boca vermelha da piça. Os nós nas madeiras da cadeira rangiam quando ela se mexia, e mexia-se sempre.
Pus-me de joelhos à frente dela só o tempo de lhe bater duas vezes na cona com os dedos, um estalo molhado, e ela gemeu alto o bastante para a janela aberta. A carne abriu-se e fechou-se sob os dedos. Levantei-me. Alinhei o pau com ela e meti-lho de um só golpe, até ao fundo. O calor fechou-se-me à volta com uma força que tirou o ar dos pulmões. Fodi-a assim, a cadeira a tremer no soalho, as cordas a cantar, e ela discutia por entre os gemidos, as frases partidas, teimosa até ao osso.
«Não era conteúdo», conseguiu dizer, a voz aos solavancos cada vez que lhe batia com a anca. «Eu... eu filmo o que quero. Não me... ah... não me fazes dona de casa.»
«Não quero uma dona de casa.» Agarrei-lhe o queixo para a obrigar a olhar-me enquanto lhe enfiava o pau até ela perder o fio. «Quero-te feia. Quero-te nesta cadeira. Quero que te venhas zangada.»
Bati-lhe na cara com a mão aberta, o bastante para a virar, e ela gemeu mais fundo, a cona a apertar-me num espasmo que não era paz. A marca da palma ficou-lhe na face um segundo, vermelha, e os olhos não se lhe fecharam. Voltei a bater-lhe no rabo pelo lado, o ângulo mau, a palma a apanhar a carne já marcada, e fodi-a mais depressa. Rosa babava-se, o cabelo colado à testa, e não transformou nada disto numa brincadeira. Olhava-me como se pudesse odiar-me e precisar de mim no mesmo segundo, e meti-lhe o polegar na boca para ela ter onde morder.
«Cadela», disse-lhe contra a orelha. «A tua cona está a chorar-me na piça e ainda estás a dar-me razão às avessas.»
Ela mordeu-me o polegar e veio-se assim, de súbito, feia, um som rasgado no peito, o corpo a sacudir-se contra as cordas, a cadeira a saltar. A cona latejou-me à volta do pau num ritmo que não pedia desculpa, e as lágrimas correram-lhe sem a tornarem suave. Continuei dentro dela enquanto ela acabava, sem abrandar, e ela insultou-me outra vez, a voz partida, sem rir.
Desatei-lhe os tornozelos, virei-a de peito contra o encosto da cadeira, e voltei a prender-lhe os pulsos. O rabo estava ao alto, vermelho, quente, a cona ainda a pingar-lhe pelas coxas. Abri-lhe as nádegas e cuspi-lhe no cu, e esfreguei a saliva com o polegar até o buraco ceder o bastante. O polegar entrou e ela apertou-se à volta dele, um tremor curto nas coxas. Rosa respirou fundo, a testa encostada à madeira, e não pediu mármore.
Meti-lhe a cabeça do pau devagar. Depois, sem piedade, o anel cedeu, e o corpo dela ficou rígido e em seguida abriu-se. O aperto era outro, mais estreito, mais fundo, e o ar saiu-me dos pulmões. Enfiei até sentir o fundo e fiquei, a pulsar, a ouvi-la a respirar como se tivesse corrido.
«Fala», mandei.
«Odeio que tenhas razão nalguma coisa», disse ela, a voz esmagada contra a cadeira. «Fode-me o cu. Não me peças para ficar doce.»
Agarrei-lhe as ancas e fodi-lhe o cu com a mesma raiva combinada da boca, fundo, o soalho a queixar-se, o colar a puxar-lhe a garganta cada vez que recuava o pescoço. A outra mão foi-lhe à cona, dois dedos no clitóris ensopado, e ela veio-se outra vez comigo lá dentro, mais feia ainda, um choro baixo que não pediu colo, as pernas a baterem no ar. O cu apertou-me num ritmo irregular e não aguentei. Enterrei-me até ao fim e vim-me dentro dela, aos solavancos, a porra quente a encher-lhe o interior enquanto ela tremia e atirava nomes contra a madeira, sem transformar aquilo em graça, sem oferecer a versão fotografável do que éramos.
Fiquei assim um tempo, o peito colado às costas dela, o pau a amolecer-lhe no cu, a corda ainda justa nos pulsos. O quarto cheirava a suor e a verão e a cabedal. Rosa chorava agora em silêncio, zangada e gasta, e quando lhe beijei o ombro ela não se virou para devolver o beijo. Desatei-a com cuidado. Ela não se levantou logo. Ficou sentada no chão ao pé da cadeira, as marcas nos pulsos, o colar no sítio, o rabo a arder, a porra a escorrer-lhe entre as nádegas, e olhou para a janela aberta como se Lisboa tivesse ouvido demais.
De manhã o calor já tinha baixado um pouco e a luz entrava suja pelo estore. Rosa estava na mesa da sala com o portátil aberto, o colar de cabedal fino ainda ao pescoço, a camisa minha outra vez sobre o corpo nu. Não tirou o colar e não o fotografou. Os pulsos tinham ainda o rasto pálido da corda e ela não os escondeu. Vi-lhe os ombros mudarem quando carregou no envio, o ecrã a devolver a confirmação curta da marca, a colaboração cancelada numa frase sem adorno. Fechou a tampa e ficou com as mãos em cima dela, quietas, mais pobre naquela faixa em que o dinheiro vinha fácil e a armadura era ser gostada por gente que não lhe via a cara feia.
«Cancelei», disse, sem olhar logo. A voz tinha perdido o riso com que costumava tapar as coisas. «Não sei como se trabalha agora. Não sei que forma isto tem se eu não puder...» Parou. Os dedos tocaram o colar uma vez, de relance, e desceram para a mesa. Não acabou a frase, não falou de público nem de joelhos. Ficou ali, a mulher que eu tinha visto cruel e molhada e teimosa, o trabalho caído à frente dela como uma mala por fazer, e só pude vê-la daquela cadeira, o cheiro a verão e a corda ainda no quarto, sem saber mais do que o que ela deixava ver.