
Rosa na Casa da Estrela
Histórias eróticas de bdsmBDSM12 min de leitura
Um conto de Rosa Fernandez
Rosa Fernandez aceita um convite sem nome para uma moradia fechada em Lisboa. O homem que abre a porta não quer o seu conteúdo. Quer vê-la de joelhos, sem telemóvel e sem a graça com que ela costuma mandar.
A chuva miúda do outono batia nos plátanos da Estrela e a moradia fechava-se para a rua como se não existisse. O cheiro da terra molhada subia do jardim e as portadas de madeira já estavam cerradas desde o fim da tarde. Abri a porta interior antes que ela tornasse a tocar a campainha. Rosa Fernandez esperava no limiar, magra debaixo do casaco escuro, o cabelo castanho-escuro preso num copete já húmido, e os olhos cor de avelã a medir a entrada como se fosse um cenário. A água escorria-lhe pela têmpora até ao maxilar e ela nem a enxugava, como se o descuido fizesse parte do figurino. Tinha vinte e quatro anos e o sorriso de quem trata uma casa alheia como palco. Aos trinta e seis, já não lhe ia oferecer essa cortesia.
Entrou a falar da chuva em Buenos Aires, da carne na grelha e do cheiro quente das avenidas, como se eu estivesse de pé no meio da calçada dela. A voz ainda trazia o sotaque aberto, as frases longas, a certeza de que qualquer silêncio se resolvia com mais conversa. Tirei-lhe o casaco dos ombros e senti-lhe o calor da nuca. A pele estava quente debaixo do tecido húmido e o cabelo cheirava a chuva e a um perfume doce que ela usava demais. O telemóvel veio a seguir, ainda aceso na palma, o ecrã a tremer com uma notificação que não li. Os dedos dela hesitaram um segundo antes de largar o aparelho, como se a casa ficasse muda sem o ecrã aceso. Ela riu baixo, aquele riso que lhe rematava a frase sem a completar, e perguntou se a luz da sala servia para o retrato. Meti o aparelho na gaveta da consola e virei a chave.
«Não vais filmar nada, Rosa. Esta casa não é para o teu público.»
Ficou quieta um instante, a língua no canto da boca, a avaliar se ainda mandava no tom. Os olhos percorreram a sala, o candeeiro, as portadas, o tapete escuro, e voltaram para mim. «E se eu quiser só a luz?» perguntou, a voz já mais baixa. Não respondi. Depois desapertou o primeiro botão da camisa e olhou para mim de frente, à espera de que eu recuasse. Não recuei. A sala cheirava a madeira molhada e a cera, o candeeiro baixo deixava a pele dela amarelada, e o silêncio da Estrela entrava pelas portadas como uma regra. Os botões seguintes saíram-lhe com menos graça, os pulsos um pouco menos seguros. Ela tirou a camisa, depois o sutiã, e as tetas pequenas endureceram no ar frio. Os mamilos escuros contraíram-se e ela cruzou os braços um instante, não por pudor, por hábito de quem espera o clique. As cuecas seguiram-se, um fio escuro que ela empurrou pelas coxas com um gesto deliberado, quase teatral, até perceber que eu não lhe dava palco. O tecido ficou no tapete como um resto de cena. Ajoelhou-se no tapete sem que eu o pedisse outra vez, as mãos pousadas nas coxas, o queixo erguido. Os joelhos afundaram-se na lã e ela ajeitou-os uma vez, depois ficou quieta. A respiração dela era rápida demais para o silêncio da casa. Queria vê-la assim, sem graça na boca, sem o telemóvel a salvá-la.
Amarrei-lhe os pulsos às costas com uma tira de cabedal, apertada o suficiente para ela sentir o limite sem perder os dedos. Rosa arqueou os ombros e o peito saiu-lhe para a frente, a respiração já mais funda. Os pulsos mexeram-se uma vez contra o cabedal e pararam. Passei-lhe a palma pelo cabelo e puxei-lhe a cabeça para trás até os olhos se encontrarem com os meus. A boca dela abriu-se por reflexo, húmida, e uma provocação começou-lhe na garganta. Calei-a com dois dedos contra os lábios.
«Ainda estás a representar. Pára.»
Os dentes fecharam-se-lhe atrás dos meus dedos e ela obedeceu, o olhar ainda a testar. A respiração saía-lhe quente contra a palma. A palma caiu-lhe na nádega direita com um estalo seco que encheu a sala. O corpo dela avançou no tapete e um som baixo saiu-lhe da boca, mais surpresa do que queixa. A carne tremeu-lhe debaixo da mão e o calor subiu depressa. Bati-lhe outra vez, na mesma carne, e depois na coxa, onde a pele era mais fina e o vermelho aparecia depressa. Ela cerrava os dentes e mesmo assim empurrava o rabo para trás, à procura do golpe seguinte, as tetas a balançar a cada impacto. Entre um golpe e o outro ouvi-lhe a respiração a mudar, a perder o ritmo ensaiado. A terceira palmada encontrou o sítio já quente e ela gemeu de verdade, o som sem pose nenhuma. Continuei nas duas nádegas, no sítio onde a coxa começa, até a pele arder debaixo da mão e as marcas da palma ficarem visíveis à luz amarela. O vermelho espalhava-se com o desenho da palma e ela já não escondia o tremor das coxas. Entre os golpes passava-lhe os dedos pela fenda, apenas a confirmar o que o corpo já confessava: a cona estava encharcada, a abrir-se sozinha, o clitóris inchado contra a ponta dos dedos. Os lábios da cona estavam inchados e brilhantes, e os meus dedos saíam-lhe molhados até à palma. Rosa ofegava de boca aberta e já não procurava a câmara imaginária. Quando lhe apertei a carne marcada entre o polegar e o indicador, ela empurrou o rabo contra a mão e murmurou o meu nome pela primeira vez, baixo, como se o estivesse a experimentar.
«Tomás.»
O nome soou-lhe diferente naquela boca. A voz tinha perdido o sotaque largo da entrada, ou talvez o tivesse engolido. Apertei-lhe os pulsos amarrados e bati-lhe outra vez, mais fundo, até ela baixar a testa quase ao tapete e oferecer o rabo sem graça nenhuma.
Pus-me de pé à frente dela e abri o cinto com uma mão só. A fivela bateu no pano. O caralho saiu-me pesado, já duro de a ver ajoelhada e marcada, e a ponta tocou-lhe no lábio inferior. Rosa levantou os olhos, ainda com um resto de brincadeira no canto da boca, e começou uma frase que ia ser piada, ia ser defesa, ia ser o papel de quem manda no enquadramento. Empurrei-lhe o pau pela língua adentro e a frase morreu-lhe num som molhado. Ela podia ter recuado a cabeça. Abriu a garganta.
Os lábios fecharam-se-lhe à volta da cabeça e o calor da boca subiu-me de imediato. Fodi-lhe a boca com vagar primeiro, a sentir a língua quente a acomodar-se ao longo, a saliva a escorrer-lhe do canto dos lábios para o queixo. Ela olhava para cima, os olhos marejados já, as pestanas húmidas, e os pulsos puxavam o cabedal sem força verdadeira. Depois fui mais fundo, a mão no copete, o pau a bater-lhe no fundo da garganta até os olhos se lhe encherem. Rosa engasgava e mesmo assim avançava, as narinas a tremer, as tetas a saltar a cada estocada. A cada recuo ela puxava o ar pelo nariz e voltava a abrir, a língua larga debaixo do pau. A baba escorria-lhe pelo pescoço e pingava-lhe nos seios. Chamei-lhe puta baixinho, modelo estragada que finalmente servia para alguma coisa, e o gemido que ela deu à volta do caralho foi de quem queria ouvir o resto. A garganta vibrou-me à volta e os ombros dela tremeram. Empurrei até o nariz lhe bater no púbis e segurei-a lá, a garganta a contrair-se à volta da cabeça, as lágrimas a desenharem-lhe riscos escuros nas faces. O copete desfez-se-lhe entre os meus dedos e o cabelo húmido caiu-lhe sobre as orelhas. Quando recuei, um fio grosso de saliva unia a boca dela à minha piça. Ela puxou o ar com avidez e abriu outra vez, sozinha, a língua de fora.
«Engoles o que te der.»
Ela assentiu com a boca cheia. Fodi-lhe a garganta até o gosto a subir-me pelas coxas, até o calor apertar baixo ventre, e vim-me-lhe fundo na boca com um gemido que não tentei disfarçar. O esperma encheu-lhe a língua e escorreu-lhe pelos lábios. Rosa engoliu, a garganta a trabalhar à vista, e limpou o que lhe ficara no queixo com a língua, os olhos ainda levantados para mim, a cara já feita um desastre húmido. Um resto branco ficou-lhe no canto da boca e ela passou a língua por ali também, lenta, sem o gesto ensaiado de quem posa. A saliva e o branco misturavam-se-lhe no pescoço. Não lhe limpei nada. Queria vê-la assim, a servir, sem arranjar o retrato.
Desamarrei-lhe um pulso só para a virar de bruços no tapete, a face contra a lã, o rabo no ar, as marcas das palmadas já escuras nas nádegas. O corpo dela pesava pouco e mesmo assim cedeu todo, as coxas a abrir-se sozinhas. Amarrei-lhe outra vez as mãos às costas e abri-lhe as coxas com o joelho. A cona brilhava, aberta, a pingar-lhe para dentro da coxa. O cheiro dela subia quente, sem perfume nenhum a tapá-lo. Passei a cabeça do caralho pela fenda, de cima a baixo, e ela empurrou-se para trás com um som frustrado. «Tomás», disse, ainda rouca. Não lhe respondi com palavras. Entrei de um fôlego só, até ao fundo, e o calor dela fechou-se à volta com uma força que me tirou o ar. Rosa soltou um gemido comprido contra o tapete, a boca aberta, a face esmagada de lado. A lã marcava-lhe a face e ela não tentava erguer a cabeça. Fodi-a assim, com o peso sobre as mãos amarradas, as estocadas a bater-lhe nas nádegas já doridas, o som molhado a encher a sala fechada. A chuva continuava nos plátanos, longínqua, e o som molhado dos corpos tapava-a.
«Isto é o que tu és quando ninguém está a ver. Uma puta que precisa de servir. Uma modelo estragada que já não manda no enquadramento.»
Ela gemeu o meu nome outra vez, abafado na lã, e apertou-se-me à volta do pau como se as palavras lhe tivessem dado licença. Apertava-me por dentro, quente, e cada vez que recuava o corpo dela seguia-me um palmo, a recusar a saída. Segurei-lhe os quadris e fodi-lhe a cona com força, o corpo dela a avançar no tapete a cada golpe, os seios esmagados contra o chão. A cara permanecia virada, a boca entreaberta, o rímel já descido até ao osso da face. Uma lágrima nova misturava-se ao preto e ela não a enxugava. Entre as estocadas passava-lhe a palma outra vez nas coxas, no rabo, no sítio onde a pele ardia, e ela respondia sempre igual: a abrir-se mais, a molhar-me até as bolas. O poder estava todo naquela recusa dela em recuperar a pose. Cada vez que o caralho lhe saía quase inteiro e voltava até ao colo do útero, um soluço curto lhe escapava, e esse soluço não era para ninguém filmar.
Parei fundo dentro dela e curvei-me sobre as costas, a boca junto da orelha. O cabelo dela cheirava a suor e à chuva da rua. Perguntei-lhe se ainda queria o telemóvel. Rosa abanou a cabeça contra o tapete, o cabelo colado à testa suada, e a voz saiu-lhe rouca, quase sem sotaque nenhum a protegê-la.
«Não. Fode-me. Por favor, Tomás. Assim.»
Retomei o ritmo e levei-lhe a mão ao clitóris, os dedos a esfregar no tempo das estocadas, a cona a sugar-me até doer. Ela estava tão molhada que os dedos escorregavam e mesmo assim o corpo dela reagia a cada passagem, a coxa a tremer contra o meu pulso. Mandei-a vir-se sem arranjar a cara, sem passar a mão pelos cabelos, sem ajeitar a boca. Ela tentou uma vez erguer a cabeça e eu empurrei-lhe a nuca contra o chão, não com raiva, com a mesma recusa de palco. O orgasmo veio-lhe aos solavancos, o rabo a tremer, a cona a apertar-me em vagas longas que me puxavam o pau para dentro. Gritou contra o tapete, um som feio e verdadeiro, e o corpo desfez-se-lhe debaixo de mim enquanto eu continuava a foder-lhe o espasmo até ela chorar de mais. As vagas não paravam e ela sacudia a cabeça contra a lã, a boca a abrir-se sem som nenhum durante um instante, depois outra vez o grito baixo. A cara ficou-lhe ainda pior: saliva, rímel, a boca aberta contra a lã, uma linha de baba até ao tapete. Não lhe dei tempo de se recompor. Vim-me outra vez dentro dela, fundo, o calor a sair-me aos impulsos contra o colo, as mãos cravadas nas ancas marcadas. O corpo dela recebeu-me com um gemido cansado, ainda a apertar, ainda a tremer. Fiquei lá até o pulso abrandar, até ela soltar o ar num fio comprido, até o silêncio da casa regressar por cima dos dois.
Só então a virei de costas, ainda amarrada, o peito a subir depressa, as pernas abertas sem pudor. A cona ficou-lhe entreaberta, a devolver-me o que eu lhe tinha deixado, a escorrer-lhe para o rabo. O branco misturava-se ao brilho dela e escorria-lhe devagar, uma linha até à lã. Olhei-a assim durante muito tempo, a mulher no tapete da Estrela, sem câmara, sem graça, as marcas da palma a escurecer nas coxas. A chuva miúda ouvia-se outra vez, agora que os corpos tinham parado, e a casa cheirava a sexo e a cera. O peito subia-lhe com um soluço atrasado e os pulsos mexiam-se contra o cabedal sem pedirem saída. Ela segurou-me o olhar e não sorriu. Havia ali um medo pequeno, misturado com o resto, o medo de ter gozado mais forte sem plateia, e esse medo excitava-me tanto como a cona molhada.
Beijei-a então, pela primeira vez. A boca dela sabia a mim e a sal, os lábios inchados, e ela devolveu o beijo com uma fome lenta, quase reconhecida, os pulsos ainda presos às costas. Os dentes dela roçaram-me o lábio inferior e um som baixo ficou-lhe na garganta, diferente de todos os outros. O beijo durou mais do que o resto, a língua dela a procurar a minha sem teatro, o corpo a amolecer debaixo do meu peito. Quando desamarrei o cabedal, os pulsos tinham o sulco vermelho da tira. Beijei-lhe também esse sulco, e ela fechou os olhos. Os dedos mexeram-se-lhe no ar, livres, e pousaram-me no antebraço sem força.
Levantei-a pelo cotovelo e levei-a até ao sofá, onde o casaco esperava dobrado. As pernas tremiam-lhe e ela deixou-se sentar um instante, as coxas marcadas contra o tecido do sofá, o copete já de todo desfeito. Ela vestiu-se em silêncio, as cuecas a esconder a cona ainda húmida, a camisa a cobrir as tetas marcadas pelo tapete. Os botões saíram-lhe tortos e ela não os corrigiu. Nas coxas, por baixo da saia, as palmadas continuavam visíveis, um mapa que qualquer ecrã denunciaria. Meti-lhe na mala o colar de cabedal fino, o mesmo tom da tira que lhe tinha prendido os pulsos, enrolado num pano escuro.
«Não publicas isto. Nem o colar, nem as marcas, nem o que te fiz na boca. Levas o número. Se ligares, ligas. Se não ligares, também percebo.»
Rosa fechou a mala com um estalo curto e passou o polegar pelo fecho, a hesitar. Os olhos dela estavam vermelhos nos cantos e o rímel ainda lhe manchava o osso da face. O telemóvel devolvi-lho na consola, ainda com a bateria quente. Ela segurou-o, olhou para o ecrã, depois para as próprias coxas, como se o reflexo da câmara lhe tivesse voltado à cabeça por um segundo. Não disparou. Guardou o aparelho no bolso do casaco e o papel com o número junto do colar, no fundo da mala, onde ninguém fotografava nada. Na soleira, a chuva ainda miúda, virou-se e o olhar dela demorou-se na gaveta onde o telemóvel tinha estado trancado. Não fez a pergunta que lhe vinha à boca. Os lábios inchados fecharam-se sobre o que quer que fosse. Desceu os dois degraus para o táxi que já esperava sob os plátanos, a mala apertada contra o quadril, o colar por usar e por não usar, o número ainda por decidir. Fiquei na porta a vê-la entrar, a saia a subir-lhe um palmo nas coxas marcadas, o telemóvel já na mão e o ecrã aceso contra o vidro embaciado, sem que o disparo viesse.