Ir para o conteúdo
1000girls logo
Grace Liu

Grace no Casamento Civil

História lésbicaQueer12 min de leitura

Um conto de Grace Liu

Na conservatória, duas mulheres assinam o casamento civil. Grace Liu veio filmar. A conservadora fecha o livro e não a deixa sair só a trabalhar.

2,7 mil leituras743 curtidas

A tarde de sábado descia sobre Lisboa com um outono claro, a luz a entrar de lado pelos vidros altos da conservatória do registo civil e a deixar um retângulo pálido em cima do livro de assentos. Estava de pé atrás da mesa, a camisa branca abotoada até ao colo, e lia a fórmula com a calma que o sítio exigia. Do outro lado da sala, Grace Liu filmava as duas mulheres que tinham vindo casar, a câmara estável no ombro e o sorriso quase escondido atrás do ecrã. Aos trinta e oito anos já tinha casado mais gente do que cabia na memória, e aquela mulher de vinte e dois anos fazia a cerimónia parecer mais estreita e mais quente, como se o ar da sala tivesse mudado de peso.

As testemunhas ocupavam o banco da frente, quietas, com as mãos no colo, enquanto as noivas apertavam os dedos uma na outra por cima da madeira. Li o preâmbulo e perguntei a cada uma se queria contrair casamento com a outra por sua livre vontade, e os dois sins vieram limpos, sem hesitação. Grace baixou um pouco a câmara quando a segunda respondeu, os lábios entreabertos, e o anel de bijutaria no dedo anelar dela deu um lampejo barato contra o mogno. Tinha vindo a pedido de Sofia, só para filmar, e o convite ainda lhe andava no corpo como uma pergunta por gastar.

«Olha para elas», disse Grace, a voz baixa e luminosa, sem tirar os olhos do enquadramento. Depois alongou a frase, porque falava das outras e não de si. «A da esquerda está a sorrir para não chorar, e a outra já nem disfarça, está a olhar-lhe para a boca como se o carimbo fosse o menor dos gestos.»

Continuei a leitura até ao termo e declarei-as unidas pelo casamento, o carimbo a bater no papel com o estalido seco que conhecia melhor do que o próprio pulso. As duas beijaram-se à frente do livro ainda aberto. Grace riu para o ecrã, um riso pequeno, e só depois virou a câmara para as testemunhas e apresentou-as uma à outra, os nomes ditos com aquela facilidade de quem trata uma sala como um quarteirão que já lhe pertence. Lá fora, Lisboa andava devagar, as folhas coladas aos passeios e um elétrico a chiar na curva.


O último casal da tarde saiu com as testemunhas e deixou para trás o cheiro a perfume e a chuva fina, e fechei o livro com a palma enquanto Grace já desmontava o tripé junto à porta de vidro, o casaco aberto sobre o vestido curto, o anel ainda no sítio, a luz de outubro a cortar-lhe as pernas.

«Ficas, Grace, a porta fecha-se agora e tu não sais com a câmara ao ombro como se isto fosse só um corredor teu», disse-lhe, a palavra lisa, sem espaço para recuo. Ela ergueu os olhos por cima do aparelho e o sorriso não recuou, testou-me com a ponta, à espera de ver se a brincadeira voltava no mesmo tom e não noutro mais feio.

Fui à porta, baixei o estore até metade e girei a chave no fecho. No corredor ainda se ouviam passos, uma gaveta, a impressora de um gabinete, e a cidade continuava para lá daquilo como se a tarde não tivesse mudado de natureza. Grace ficou no centro da sala com a câmara nas duas mãos, o peito a subir depressa demais para quem só tinha filmado votos alheios.

Tirei-lhe o aparelho e pus a câmara em cima do armário dos processos, o ecrã virado contra a madeira, e o silêncio que ficou era o da sala onde as outras tinham acabado de dizer que sim.

«Filipa», chamou ela, o nome curto, quase um convite. «Isto ainda conta como trabalho, ou já estás a mandar-me ficar por outra razão?»

«Já não conta como trabalho nenhum.»

Cheguei-me à mesa dos assentos, a mesma onde o livro descansava, e encostei-a à borda de mogno com o corpo inteiro. Beijei-a de boca aberta e meti-lhe a língua dentro, e ela abriu-me os dentes depressa, como se estivesse à espera daquilo desde o primeiro carimbo da tarde. As mãos subiram-me pela camisa até os dedos, frios ainda do metal da câmara, encontrarem a pele quente por baixo do algodão. Um elétrico passou lá fora e o som entrou pelo estore a meio. Ela riu-me contra a boca, o riso mole de quem quer que a coisa volte igual.

«Tira-me o vestido antes que batam à porta», murmurou, e já estava a puxar-me o casaco para baixo dos ombros, a decidir o ritmo com as mãos.

Puxei-lhe o vestido pelas ancas até ele cair em volta dos sapatos. As cuecas eram um fio escuro, já marcadas no meio, e cheirei-a através do tecido antes de lhas baixar pelas coxas. A cona veio à luz da sala pública, escura, molhada, o clítoris inchado contra o lábio quando a língua encontrou o sítio. Ela agarrou-me o cabelo e abriu as pernas sobre a mesa onde as outras tinham assinado, o rabo assente na madeira do Estado, e gemeu baixo para o som não atravessar a porta.

«Mais», pediu, a voz ainda curta. «Assim, com a língua à mostra, se alguém olhar pelo vidro vê-te a comer-me e eu quero isso.»


Lambi-a devagar primeiro, a fenda inteira, o sabor a sal e a calor, e depois fechei a boca no clítoris e chupei com força, dois dedos a entrar-lhe na cona até ao fundo. Grace empinou-se contra a cara, as coxas a tremerem-me contra as orelhas, e a mesa estalou. Os passos no corredor pararam um segundo e ela arfou preso, as unhas cravadas no cabelo, a cona a fechar-se à volta dos dedos com uma lentidão gulosa. Continuei com a língua no mesmo sítio, sem a tirar, enquanto os dedos molhados saíam e voltavam, o polegar a abrir-lhe os lábios para ficar visível o rosa escuro à luz amarela da conservatória.

Ela olhava para a porta de vidro com o estore a meio, a boca aberta, e isso molhava-a mais do que a língua. Levantei a cara só o suficiente para lhe falar contra a pele.

«Estás na mesa dos assentos, Grace, e o livro está aqui ao lado, aberto na página das outras.» Os dedos torciam-se-lhe dentro, o indicador a procurar o sítio que a fazia perder a frase. «Se baterem, ficas assim, com a cona na minha boca e o vestido pelos tornozelos.»

«Deixa bater», disse ela, e a frase veio-lhe inteira, porque desta vez falava de si e ainda assim não encolheu. «Deixa verem que fiquei.»

Meti-lhe o terceiro dedo e ela arqueou as costas, o anel a bater de leve contra a madeira. A cona estava tão molhada que o som era alto demais para uma sala da República. Chupei-lhe o clítoris com a língua larga, depois com a ponta, e senti-lhe as pernas a fecharem-se-me na cabeça quando o primeiro orgasmo lhe chegou. Veio-se com um gemido curto, o corpo a puxar-me para dentro, a cona a pulsar-me nos dedos numa sequência apertada que me deixou a cara ensopada. Não a larguei e continuei a lamber enquanto ela se tremeu, o sabor dela na boca, o queixo escorrido, e só quando as coxas lhe afrouxaram é que subi o beijo pelo ventre até ao peito, a camisa dela já aberta, um mamilo entre os dentes.

Ela riu, cansada e acesa, e puxou-me a cara para a dela. Beijámo-nos com o gosto dela no meio. As mãos procuraram-me o cinto da saia e a camisa, e deixei. Queria vê-la a despir-me naquela sala como se o cargo fosse um fato que se tira.


Fiquei de pé entre as pernas dela, a saia no chão, as cuecas já de lado, e voltei-lhe os dedos para baixo, escorrendo da cona para o cu. O anel dela resvalou no mogno quando se segurou à borda. O primeiro dedo entrou-lhe no cu devagar, molhado do que ela tinha deixado na mão, e Grace segurou o ar, os olhos muito abertos, a olhar-me como se a pergunta agora fosse outra.

«Fala», pedi-lhe. «Quero ouvir-te nesta sala.»

«Mete», disse ela, outra vez breve, e depois, porque o corpo já não lhe chegava, alongou. «Mete e não tires, Filipa, que estou na tua mesa e o corredor ainda tem gente e isso está-me a deixar a cona outra vez à espera.»

O segundo dedo pediu passagem e ela empurrou-se contra a mão, o cu a abrir-se com uma lentidão quente, a cona a pingar-me no pulso. Fodi-lhe o cu com os dedos no ritmo da respiração, a outra mão no clítoris, e a sala cheirou a sexo por cima do papel e do carimbo. Grace tinha a cabeça deitada para trás, a garganta à mostra, e cada vez que um passo soava no corredor ela apertava-me os dedos lá dentro, a querer o risco, a escolhê-lo.

Tirei-lhe os dedos quando o corpo lhe ia outra vez naquela curva. Ela protestou com a boca, um som baixo, e abri a gaveta do lado da mesa, aquela onde de manhã tinha deixado a cinta dobrada debaixo duns processos, e tirei-a com o mesmo gesto com que de manhã selava papéis. Apertei-a à volta da anca até o pau escuro se erguer contra o ventre. Grace olhou para aquilo com uma fome sem vergonha, as pernas ainda abertas na madeira da mesa.

«Vens para o livro», disse-lhe. «As mãos em cima. Quero-te a dizer a fórmula enquanto te fodo.»

Ela riu, um riso que desta vez não testava nada, e virou-se, o peito contra o livro de assentos, as palmas abertas sobre os nomes das outras, o rabo alto, a cona à mostra para o lado da porta. O anel escorregou-lhe do dedo e caiu ao lado do carimbo, um tilintar pequeno, e deixei-o ficar onde tinha caído.


Encaixei o pau da cinta na cona dela de um só movimento, até ao fundo, e Grace soltou um som que a madeira engoliu. Fodi-a assim, fundo, a cinta a bater-lhe no rabo, as mãos dela a vincarem as páginas. A cada estocada a mesa andava um dedo e o livro fechava-se-lhe debaixo das palmas. Segurei-lhe a anca com uma mão. Com a outra apanhei-lhe o cabelo e falei-lhe ao ouvido no tom em que de tarde casava gente.

«Diz a fórmula, Grace. A mesma que li às outras.»

Ela engasgou-se no primeiro empurrão. «Declaro que quero casar contigo.» A voz saiu-lhe partida, e fodi-a mais fundo, o pau a sair molhado e a voltar. «Por minha livre vontade. Filipa, por minha livre vontade.»

«Outra vez.» O ritmo era duro, sem lhe dar sítio para fingir que estava só a filmar. «Inteira.»

«Declaro que quero casar contigo por minha livre e espontânea vontade.» As mãos dela não saíam do livro. Os nós dos dedos estavam brancos de tanto apertar. «Quero assinar. Não quero filmar. Quero ser de alguém, Filipa, mete, não pares, quero ser de alguém neste sítio.»

Fodi-a até a frase lhe desfazer, o pau da cinta a entrar-lhe na cona com um som húmido e constante, o clítoris esmagado contra a borda da mesa cada vez que ia ao fundo. Grace veio-se assim, as mãos no livro de registos, o corpo a fechar-se à volta da cinta numa sequência longa, a boca aberta contra o papel oficial, a dizer que queria assinar, que queria ser de alguém, que já não queria a câmara. Aguentei-a nessa curva, a foder-lhe o orgasmo até ao fim, até as pernas lhe falharem e o peito lhe bater no livro. O pico veio-lhe inteiro, físico, e depois veio o que restava, o tremor, o arfar contra os nomes das outras, a cona a pulsar ainda com o pau lá dentro.

Tirei-me dela com lentidão, a cinta escorrida, e virei-a de frente sem a casar, sem lhe dar o que o livro dava às outras. Grace estava bonita daquela maneira desfeita, a boca vermelha, o olhar ainda a pedir um carimbo que não ia dar.


Sentei-me na cadeira da conservadora, a cinta ainda posta, as coxas abertas, e puxei-lhe a cara para a cona. Ela veio de joelhos no chão da sala, sem lho pedir duas vezes, e enterrou a boca em mim com uma fome que já não era brincadeira. A língua dela encontrou-me o clítoris, os lábios a fecharem-se, e chupou como se a fórmula lhe tivesse ficado na garganta. Enfiei-lhe os dedos no cabelo e fodi-lhe a cara com a anca, a cona molhada a escorregar-lhe no queixo, e ela gemeu contra mim, o som a vibrar-me por dentro.

«Assim», disse-lhe, e a voz saiu-me menos de cargo do que queria. «Olha para mim enquanto me comes.»

Olhou para mim, os olhos pretos e húmidos, e isso tirou-me o chão. Vim-me na boca dela com as pernas apertadas à cabeça, a cona a pulsar-lhe na língua, a mão a tremer-lhe na nuca, e ela não recuou, bebeu-me até ao fim, a cara ensopada, o queixo brilhante à luz amarela. O depois chegou-me mais lento, o corpo a descer, a cinta a pesar-me na anca, e Grace ficou de joelhos a respirar contra a coxa, a palma aberta no joelho, um gesto pequeno, quase terno, no meio daquela sala de papel.

Apanhei o anel ao lado do carimbo. Peguei-lhe na mão e voltei a metê-lo no dedo, a bijutaria barata outra vez no sítio, quente da madeira. Ela olhou para o anel e depois para mim, à espera de uma frase que não veio.

«Não te caso, Grace. Este livro não é para nós duas.» Apertei-lhe os dedos à volta do anel e soltei. «Ficas com isto. Decides tu se o tiras quando saíres à rua.»

Ela não o tirou e abotoou o vestido com as mãos ainda a tremer, as cuecas no bolso do casaco, e o anel ficou à vista, um círculo falso a brilhar contra a pele.


Liguei o computador da conservatória, o ecrã a acender com o fundo institucional, e abri a grelha de agendamentos. Criei uma senha, um código curto, uma data em branco que o sistema aceitou porque tinha a chave. Escrevi o número num canto de papel de assento, dobrei-o e pus-lho na palma.

«Levas isto. É uma senha de agendamento. O resto fazes tu, ou não fazes.»

Grace olhou para o papel, depois para a câmara em cima do armário, e não a pediu de volta logo. Tirou o telemóvel do casaco, desbloqueou o ecrã com o polegar e escreveu. Vi o nome no topo da conversa, Marta, e as palavras a formarem-se depressa, curtas, sem o apagar do costume, e enviou-as assim. O visto não chegou ainda, mas a mensagem ficou na conversa, visível, e ela não deslizou o dedo para trás nem a fez desaparecer. Guardou o telemóvel, o anel no sítio, a senha apertada na outra mão.

Abri-lhe a porta. O corredor cheirava a papel húmido e a café frio. Ela passou por mim com o casaco às costas, o vestido a marcar-lhe as pernas, e na soleira virou a cara o suficiente para lhe ver a boca ainda vermelha.

«Filipa», disse, e o nome veio-lhe outra vez curto, desta vez sem teste. Depois, porque falava do papel na mão e não de si, alongou. «A senha está aqui, e a Marta já a tem no ecrã, e eu não a apaguei.»

Ficou um segundo na luz do corredor, o outono a entrar pelos vidros do patim, o anel a dar aquele lampejo barato, e depois desceu os degraus da conservatória com a senha fechada no punho.