
A porta da academia bateu com o vento seco de outubro e Grace Liu entrou a rir para o espaço quase vazio, o saco a bater-lhe na anca, como se aquele ginásio de Lisboa fosse mais uma sala onde já conhecia toda a gente. Tinha vinte e dois anos e o sorriso quente de quem organiza o mundo à volta dela, o cabelo preso num rabo alto que lhe deixava a nuca nua. Estava à espera há vinte minutos, com vinte e nove anos nas pernas e o casaco ainda vestido, e o riso dela não me encontrou nenhum de volta. Helena tinha-lhe dito o nome da treinadora e o endereço da sala; pouco mais chegou com ela naquela primeira tarde.
«Cheguei atrasada a sério, o elétrico, e depois uma senhora no passeio precisava de ajuda com os sacos», disse Grace, já a puxar o fecho do casaco, a voz curta e clara, à espera de que a desculpa virasse conversa. O sorriso ficou-me fora da cara. Apontei para o tapete do fundo, junto aos espelhos, e deixei as instruções caírem sem rodeios.
«Sapatilhas. Água. Dez minutos de mobilidade. Depois falamos do plano.»
Ela pôs a língua no canto da boca, a testar se a secura voltava em brincadeira, e baixou-se para atar os cordões com um «está bem, chefe» que ficou no ar sem resposta. O ginásio cheirava a borracha quente e a folha molhada que o vento empurrava para o capacho. Lá fora a luz de Lisboa já caía cedo, amarela e baixa, e as janelas da frente ainda estavam abertas para a rua.
Mandei-a para o chão, ancas para trás, coluna longa. Corri-lhe os polegares ao longo das omoplatas até sentir o músculo ceder debaixo da pele. No terceiro agachamento meti-lhe a mão por baixo do sutiã desportivo. Os dedos encontraram-lhe o mamilo já duro contra o tecido húmido e tratei-lhe o peito como se fosse mais uma correção de postura.
«Inspira. Segura. Agora larga, devagar.»
Grace obedeceu e o peito encheu-se-lhe contra a palma, um som pequeno a escapar-lhe da boca, não de esforço. A pele dela era quente e o suor começava no esteio do sutiã. Apertei-lhe o mamilo entre dois dedos e senti-a tremer de um lado só, a coxa a falhar o ângulo que lhe tinha pedido.
«Outra vez. O joelho não cai para dentro. E não pares de respirar porque te estou a tocar.»
Ela riu-se baixo, um convite curto, e empurrou o peito contra a mão em vez de se afastar, os olhos no espelho a procurar a minha cara para ver se a piada pegava. A piada não pegou. Continuei-lhe o mamilo em círculos lentos enquanto ela descia e subia, e a respiração dela ficou irregular exatamente no ponto em que eu queria.
Ao fim de vinte minutos a sala tinha esvaziado. O último gajo da passadeira enrolou os auriculares e saiu sem olhar para nós. Fui até à porta e virei a chave duas vezes. Depois baixei o estore da frente só até meio, o bastante para a rua continuar a existir como ameaça mansa. Grace viu o gesto e não perguntou nada. Ficou de pé no tapete, o sutiã desportivo já marcado de suor no meio dos peitos, as pernas abertas na posição que lhe tinha deixado.
«Isto ainda é o treino?» perguntou, a voz clara, a brincadeira macia à espera de volta.
«É o plano», respondi. «Deita-te no banco da Smith, a máquina da barra guiada. Sutiã para cima. Cuecas para o lado. Quero ver-te trabalhar sem a roupa a mentir.»
Ela subiu o tecido por cima dos peitos com as duas mãos. Os mamilos, escuros, apertaram-se-lhe com o ar fresco da sala. Puxou depois o elástico das cuecas para a virilha esquerda até a cona lhe ficar à mostra, já brilhante. O anel de bijuteria no dedo anelar da mão direita deu um brilho barato quando ela se agarrou à barra. Deitei-a de costas no banco, a cabeça virada para o lado dos pesos, as coxas abertas para mim e para o espelho do tecto. Abaixei-me entre os joelhos dela e cheirei-lhe o calor antes de a tocar com a boca. Grace arqueou-se logo, um gemido curto, e as mãos foram-me ao cabelo sem puxar. Lambi-lhe a fenda de baixo para cima, devagar, a língua larga, e senti o gosto a sal e a pele, a humidade dela a abrir-se contra a boca como se já estivesse à espera disto desde a porta.
«Marta», disse ela, e o nome saiu-lhe redondo, quase um convite para outra pessoa entrar na sala. «Se alguém olhar pelo vidro…»
«Deixa olhar.» A língua entrou-lhe na cona e ela cerrou as coxas contra as minhas orelhas, depois abriu-as outra vez, a decidir. Chupei-lhe o clítoris com os lábios fechados, um ritmo chato e constante, e meti-lhe um dedo até ao fundo só para sentir como apertava. Estava encharcada, e o banco rangeu debaixo dela. Lá fora passou um autocarro e a luz amarela varreu-lhe a barriga nua. Grace gemeu mais alto nesse instante, a rir-se no meio do gemido, e empurrou a cona contra a minha cara com uma decisão limpa, sem pedir desculpa.
O queixo ficou-me de molho em poucos minutos. Acrescentei o segundo dedo e curvei-os para dentro, a procurar o ponto que faz a perna saltar, e continuei a chupar-lhe o clítoris com a boca aberta, a saliva a misturar-se-lhe com o que ela já largava. Grace falava aos solavancos, frases curtas, «assim, assim, não pares», e só alongava a voz quando olhava para o espelho do tecto e dizia que eu estava linda ali em baixo, como se apresentasse a cena a alguém que não tinha chegado. Não lhe respondi. Fodi-a com os dois dedos num ritmo de treino, fundo e marcado, o polegar a premir-lhe o clítoris quando a língua precisava de ar. Ela molhou-me até ao pulso. O cheiro encheu o vão entre o banco e o peito dela.
Quando meti o terceiro dedo ela soltou um som grave, a cona a ceder e a fechar ao mesmo tempo, e as unhas cravaram-se-me no ombro. «Respira», mandei. «Não te esqueças. Inspira no fundo. Larga quando te eu disser.» Ela tentou rir e não conseguiu. Os três dedos cabiam-lhe com aperto, a palma a bater-lhe na pele molhada a cada estocada, e a boca dela abriu-se sem som. Chupei-lhe o clítoris com força, a língua a bater no sítio certo, e senti-a a vir-se pela primeira vez contra a cara, as coxas a tremerem de um lado, o banco a ranger, um choro pequeno no fim do gemido. Não retirei os dedos. Continuei-lhe o movimento por dentro enquanto ela se sacudia, mais lenta, mais funda, até o segundo orgasmo lhe chegar em cima do primeiro, mais sujo, com ela a dizer o meu nome como se fosse um exercício que lhe tinham marcado e ela tivesse de cumprir.
Abaixei a cara e lambi-lhe o que tinha escorrido para o rabo, a língua a passar-lhe pelo cu só para a ouvir praguejar baixinho. Grace agarrou-me o cabelo e puxou-me para cima, a boca dela a procurar a minha com uma fome que já não era brincadeira. Beijou-me com gosto dela na língua, os peitos nus a esmagarem-se-me contra o casaco, e mordeu-me o lábio inferior com um apelo breve. «Leva-me para onde não haja barra», pediu. «Quero-te a foder-me a sério.»
O vestiário das mulheres cheirava a champô barato e a azulejo frio. Alguém tinha deixado um chuveiro a pingar e o chão estava molhado numa faixa brilhante até aos cacifos. Fechei a porta interior e tirei a cinta da mochila, o pau de silicone escuro já preso na fivela. Grace olhou para aquilo e o sorriso desceu-lhe na cara, mais baixo, os olhos a medirem o comprimento como se fosse mais um aparelho da sala. Ajoelhou-se sozinha no chão molhado, as cuecas ainda puxadas para o lado, o sutiã desportivo arriado, e abriu a boca antes de eu lhe pedir. Enfiou o pau até à garganta sem hesitar, a saliva a escorrer-lhe pelo queixo, e olhou para cima enquanto chupava, a testar se eu gostava de a ver assim. Gostava de a ver daquele modo, ajoelhada e disposta. Agarrei-lhe o rabo alto do cabelo e fodi-lhe a boca com calma, o suficiente para lhe ouvir o som molhado, o suficiente para ela se molhar outra vez entre as pernas sem que ninguém lhe tocasse na cona.
«De quatro. Agora.»
Ela virou-se no chão molhado, os joelhos a escorregarem um palmo, as mãos espalmadas no azulejo, o rabo alto, a cona vermelha e aberta. Ajoelhei-me atrás dela, alinhei o pau da cinta e entrei num só movimento fundo, até ao osso da anca. Grace arqueou as costas e soltou um gemido que bateu nos cacifos. O chão molhado fazia-lhe ruído debaixo das palmas. Fodi-a com o peso do treino, estocadas longas que lhe batiam na carne do rabo, uma mão na nuca a manter-lhe a cara baixa, a outra a rodear-lhe o quadril para lhe encontrar o clítoris. Ela empurrava para trás a cada golpe, a pedir mais fundo sem formular o pedido, e o som da cinta contra a pele molhada encheu o vestiário. Quando lhe apertei o clítoris entre dois dedos ela veio-se outra vez, a cona a tremer à volta do pau, as coxas a falharem, um choro aberto que já não tentava disfarçar de riso.
Retirei-me, virei-lhe a cara pela boca e meti-lhe o pau molhado dela outra vez pelos lábios. «Limpa.» Obedeceu, a língua larga, os olhos marejados de esforço e de prazer, e chupou até ao fundo da cinta enquanto eu lhe falava baixo, a dizer-lhe que era boa, que o corpo dela respondia ao plano melhor do que qualquer folha de treino. Grace gemeu com a boca cheia e a mão dela foi-lhe à cona, a tocar-se com pressa, até eu lhe retirar os dedos e os substituir pelos meus.
Levei-a de volta à sala principal, à zona dos espelhos de parede inteira, a cinta ainda húmida. Pousei-lhe as mãos no vidro, de frente, as pernas abertas, e entrei nela por trás outra vez, mais devagar, para a obrigar a ver-se. O peito dela bateu no espelho a cada estocada. Os mamilos iam ficando achatados contra o vidro frio. Grace olhava para a própria cara e para a minha por cima do ombro, a boca aberta, o cabelo a soltar-se. Fodi-a fundo, o pau da cinta a desaparecer-lhe na cona, e a mão livre subi-lhe pela barriga até ao pescoço, sem apertar, só a lembrar-lhe quem mandava no ritmo.
O anel deu outro brilho quando ela tentou agarrar o espelho. Segurei-lhe aquela mão, os dedos sobre os dedos dela, e perguntei, a foder-lhe contra o vidro, se o anel era de alguém. Grace não o tirou. Encostou a testa ao espelho, veio-se outra vez com um gemido longo, a cona a puxar o pau para dentro, e sacudiu a cabeça sem explicar. Continuei. As coxas dela batiam nas minhas. O vidro embaciou-se-lhe à volta da boca. Fodi-a até as pernas lhe tremerem de verdade, até ela ter de ser eu a segurá-la pela anca para não escorregar, e o orgasmo seguinte chegou-lhe sujo, com saliva no queixo e a cona a fazer um som molhado a cada saída.
«Olha para ti», disse-lhe ao ouvido. «Isto é o que eu quero todos os dias. Não só hoje. Janta comigo. Quero-te só a mim.»
Ela veio-se outra vez no meio da frase, mais fundo, um choro verdadeiro a cortar-lhe a garganta, as lágrimas a misturarem-se-lhe com o suor no espelho. Não respondeu. Empurrou o rabo para trás, a pedir que eu não parasse, e o anel continuou no dedo, barato e quieto, enquanto a fodia até o corpo lhe ceder de todo contra o vidro.
No chão, depois, deitei-a de costas outra vez e tirei a cinta só para lhe meter a boca na cona até ela não aguentar o contacto. Grace chorava e ria no mesmo fôlego, as mãos no meu cabelo, as pernas abertas sem pudor nenhum, e veio-se contra a língua com um soluço que lhe tremeu no peito. Lambi-a devagar no fim, a limpar-lhe o que tinha, a beijar-lhe a parte de dentro das coxas com uma calma que ela não estava a devolver em palavras. Quando subi para lhe beijar a boca ela recebeu-me, doce e suja, e deixou-me o gosto dela inteiro.
«Janta. Amanhã. Depois do treino das sete. Quero-te em exclusivo, Grace. Quero que me digas que sim.»
Ela limpou as lágrimas com as costas da mão, a boca a tentar recuperar o brilho de quem organiza o mundo, curto, e mudou de assunto para o horário como se o sim fosse uma pessoa na sala a quem ainda não tinha sido apresentada. «As sete… talvez. Tenho de ver uma coisa. Mandas-me a mensagem com a sala?» Não disse que sim nem que não. Vestiu o sutiã desportivo com os mamilos ainda duros, puxou as cuecas para o sítio, e o anel voltou a tapar-se quando ela fechou o punho em volta da alça do saco. Marquei-lhe o horário no ecrã do telemóvel e deixei a confirmação em aberto, um espaço branco onde o nome dela cabia e ela não o preencheu.
Acompanhei-a até à porta. O estore ainda estava a meio. A rua de Lisboa cheirava a chuva nova e a castanha assada de algum carro mais abaixo. Ela parou no umbral, quase a voltar para dentro, o corpo já a pender para o meu, e beijou-me na boca com uma fome que não combinava com a recusa em falar. Depois saiu para a calçada.
O prédio dela ficava a dois quarteirões, um prédio antigo de escada estreita, e subi com ela até ao patamar porque a noite tinha caído de vez e ela não recusou o acompanhamento. No mesmo andar, duas portas à frente da dela, uma mulher de casaco comprido estava parada a tocar à campainha, o saco da compra a pendurar-lhe do pulso, a espera paciente de quem vive ali. Grace viu-a e o sorriso automático aqueceu-lhe outra vez a boca, já a abrir os lábios para apresentar gente que ainda não se tinha falado. Não chegou a dizer o meu nome. Ficámos as três no patamar um segundo a mais, o cheiro do sexo ainda colado à pele dela por baixo do casaco, e a vizinha olhou para nós com a curiosidade educada de um fim de tarde.
Grace não me pediu para entrar, não tirou o anel, e não deu o sim que eu lhe tinha posto na mesa junto com o jantar e o horário. Quase ficou; senti-lho no modo como o corpo se atrasou na fechadura, as coxas ainda a lembrarem-se da cinta, a cona ainda a pulsar contra as cuecas. A vizinha tornou a tocar, mais firme. Grace olhou para mim por cima do ombro, os olhos marejados da sala, a boca ainda vermelha, e o convite curto morreu-lhe na garganta antes de se tornar uma frase.