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Grace Liu

Grace e o Romance na Galeria

Romance lésbicoQueer12 min de leitura

Um conto de Grace Liu

Numa galeria fechada em Lisboa, Helena chama Grace Liu para ver as próprias fotos. A porta tranca-se. O romance que ela veio procurar não é doce.

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Eu girei a chave na porta da galeria privada no Chiado e o trinco soou mais alto do que a chuva de outono na calçada. O jantar da marca, que se arrastara por três horas, deixara Grace Liu ainda com o casaco nos ombros quando ela atravessou o espaço branco. Tinha vinte e dois anos, o cabelo solto sobre as costas, e olhava as próprias fotografias como se pudesse rearranjar as luzes da sala. Eu tinha comprado cada impressão da mostra. Ela tinha vindo porque eu disse que queria ver as fotos com ela sozinha, e o romance que ela vinha procurar não ia ser doce.

Grace parou no centro da sala e virou o rosto para mim com aquele jeito de quem já está apresentando o ambiente para a próxima pessoa.

«Você vai me mostrar o que comprou ou a gente só fica se olhando?», ela perguntou, a frase curta, brilhante, um convite disfarçado de graça.

Eu tirei o casaco e deixei-o cair no banco da recepção. O silêncio da galeria fechada tinha um peso que eu gostava de sentir nos ombros. A rua lá fora ainda tinha gente passando sob os toldos, mas o vidro era grosso e as luzes internas faziam de nós um espetáculo se alguém parasse o suficiente para olhar.

«Tira o telefone do bolso e põe na mesa», eu disse. «Sem foto. Sem história. Sem organizar ninguém.»

Ela riu e o sorriso aqueceu o espaço entre nós, mas as mãos obedeceram mais devagar do que eu queria. O aparelho bateu no mármore com um estalido seco. Grace passou a palma na saia curta como se ainda pudesse decidir o tom da noite.

«Helena, a gente mal terminou o vinho.»

Meu nome na boca dela soou pequeno, quase um pedido de trégua. Eu caminhei até ela, apanhei-lhe o queixo com dois dedos e forcei o olhar dela para o meu.

«No chão. De joelhos. Agora.»

A dúvida passou pelo rosto dela como um cálculo rápido. Grace queria ser desejada sem perder o controle da sala, e eu via isso no jeito como os ombros se arrumavam, no impulso de transformar até uma ordem numa brincadeira partilhada. Eu só a ia foder se ela parasse de organizar.

Ela desceu. Os joelhos tocaram o cimento polido, a saia subiu nas coxas, e eu senti a minha própria buceta apertar só de ver a boca dela à altura do meu vestido. Puxei o tecido para cima, sem calcinha de propósito, e encostei o clitóris nos lábios dela.

«Abre. Língua. Sem as mãos.»

Grace obedeceu com uma hesitação que ainda era vaidade. Depois a língua dela me encontrou quente e molhada, e eu segurei o cabelo dela com os dois punhos. O primeiro gemido foi meu. Ela chupou como quem ainda queria impressionar, e eu empurrei o quadril contra a cara dela até ela ter de respirar pelo nariz, os olhos levantados para mim, brilhantes, já sem o plano da noite.


Eu a puxei de pé antes que ela pudesse acabar o que tinha começado, porque a boca dela era boa demais e eu não ia gozar primeiro. Grace ficou instável, a saia torcida à volta das ancas, a boca brilhante de mim. Virei-a de frente para o vidro grande que dava para a rua. Um casal passou sob o toldo, falando baixo, e o guarda-chuva deles desenhou uma sombra rápida no chão da galeria.

«As mãos no vidro. Afasta as pernas», eu disse contra a orelha dela. «Se alguém olhar, deixa olhar.»

Ela obedeceu e o peito subiu depressa demais para o ar frio que vinha das juntas da caixilharia. Eu ajoelhei atrás dela, levantei a saia até a cintura e puxei a calcinha para o lado. A buceta dela já estava inchada, o cheiro doce misturado com o vinho do jantar. Abri os lábios com os polegares e meti a língua direto na fenda. Grace soltou um som que tentou engolir, e eu chupei o clitóris com a boca inteira, sem delicadeza, sentindo o corpo dela tremer contra o vidro.

Lá fora, um homem parou para acender um cigarro e o olhar dele passou pela vitrine. Eu não recuei. Enfiei a língua mais fundo, lambendo a entrada molhada, e Grace bateu a testa no vidro com um gemido que já não era disfarçado. Chupei com ruído, de propósito, e os quadris dela empurraram para trás contra a minha cara como se ela tivesse esquecido a rua. A exposição a deixava mais molhada. Eu sentia o gosto dela escorrer pelo queixo, e isso me deixava faminta de um jeito que o jantar não tinha tocado.

«Eles podem te ver», eu falei com a boca ainda nela, as palavras vibrando na carne. «A buceta aberta, a saia no quadril, gozando para uma mulher que você conheceu hoje.»

«Então deixa», ela disse, a voz quebrada, e o convite saiu curto outra vez, mas desta vez não era brincadeira. Eu enterrei a cara nela até o nariz molhar, chupando o clitóris entre os lábios, dois dedos já prontos na entrada. Grace arqueou as costas e o vidro embaçou com a respiração dela. O homem do cigarro já tinha ido embora, ou talvez não, e eu não me importava. Queria que ela sentisse o risco no corpo. Queria que o controle da sala escorregasse pelos pulsos dela junto com a calcinha.


Eu a virei de novo, desta vez de frente para a parede das fotografias, aquelas imagens grandes em que ela sorria para o mundo como se cada pessoa fosse um vizinho. Grace ficou de costas para o vidro frio e o rosto para as próprias fotos, as pernas abertas porque eu não deixei que ela as fechasse. Meti dois dedos na buceta dela de uma vez, fundo, e o gemido dela subiu pelas impressões como se as imagens pudessem ouvir.

«Olha para você», eu disse. «Essa daí organiza a festa. Essa daí apresenta as pessoas. Essa daí não está aqui.»

Os dedos saíam molhados e eu os enfiei de novo, curvando contra o ponto que a fez dobrar os joelhos. Com a outra mão abri a bunda dela e passei o polegar molhado no cu, sem pedir, só esperando o corpo responder. Grace prendeu a respiração e depois empurrou para trás, pedindo sem palavra. Meti o polegar no cu dela até a junta, os dois dedos ainda fodendo a buceta, e o aperto duplo encheu os olhos dela de lágrimas.

Ela tentou falar de outra pessoa, alongando a frase como faz quando quer desviar o assunto para quem ainda precisa de alguma coisa na noite.

«O garçom do jantar, aquele que trouxe o segundo vinho, ele ia gostar de saber que a mostra...»

«Cala a boca», eu disse, e girei o polegar dentro do cu dela enquanto os dedos batiam mais rápido na buceta. «Você não apresenta ninguém. Você goza.»

Grace gozou com a cara virada para as fotografias, a boca aberta, um choro curto que ela não conseguiu transformar em graça. A buceta apertou meus dedos numa sequência desordenada, o cu sugou o polegar, e um fio escorreu pela coxa até o joelho. Continuei fodendo os dois buracos até ela se agarrar no meu ombro, até o segundo tremor vir em cima do primeiro, até ela dizer que não aguentava e o corpo dizer o contrário. Só então tirei os dedos, lentos, e mostrei a mão molhada na frente do rosto dela.

«Chupa.»

Ela chupou. Os lábios dela limparam meus dedos com uma obediência que ainda lutava contra o orgulho, e eu senti a língua quente entre os nós, o gosto dela voltando para a boca dela. As fotografias continuavam sorrindo na parede, inúteis.


A reserva da galeria tinha um sofá de veludo escuro que o arquiteto tinha escolhido para parecer discreto e que eu tinha escolhido para foder. Levei-a para lá pela nuca, sem pressa, e sentei-a com as pernas abertas sobre o meu colo, a saia já sem função. Grace ainda tremia, a calcinha num tornozelo, e tentou beijar minha boca. Eu virei o rosto. Os lábios dela esbarraram na minha bochecha.

«Não», eu disse. «A boca não. Ainda não.»

Ela piscou, ferida de um jeito pequeno e verdadeiro, e isso me agradou mais do que deveria. Ajeitei o quadril dela sobre a minha coxa e esfreguei a buceta molhada no tecido do meu vestido até ela gemer de novo, já sensível demais. Com a mão direita voltei a meter três dedos na buceta, fundo, e com a esquerda segurei o queixo dela para que ela não pudesse esconder o rosto.

«Você quer ser gostada», eu falei baixo. «Todo mundo gosta de você. Isso não é o que está acontecendo aqui.»

Grace moveu os quadris no meu colo, fodendo-se nos meus dedos com uma fome que já não pedia licença. Os peitos dela subiam contra o decote, os mamilos duros visíveis sob a blusa fina, e eu mordia o pescoço em vez da boca, deixando marca. Ela tentou outra vez o beijo, inclinando a cabeça, e eu recuei o suficiente para que o recado ficasse claro.

«Pede outra coisa», eu disse. «Não isso.»

«Fode meu cu», ela pediu, e a frase veio inteira, sem enfeite. Tirei os dedos da buceta, molhei o cu dela com o que escorria, e enfiei dois de uma vez. Grace arqueou no meu colo, a testa na minha clavícula, e eu fodi o cu dela devagar no começo, sentindo o anel de músculo ceder e depois puxar. O veludo do sofá agarrou a pele das coxas dela. Aumentei o ritmo até ela cavalgar a mão, até o som molhado encher a reserva, até ela dizer meu nome outra vez sem eu ter pedido.

A recusa do beijo ficava entre nós como um fio tenso. Eu queria a boca dela. Queria de um jeito que me irritava. Mas o beijo era o centro da viagem dela, o conteúdo, a prova de que a noite tinha sido um romance, e eu não ia dar isso enquanto ela ainda estivesse montando a cena.


Eu a deitei de costas no sofá e ajoelhei entre as pernas dela, os dedos ainda no cu, o polegar voltando para o clitóris. Grace olhava para o teto da reserva como se pudesse negociar com o gesso. Fodi os dois lugares ao mesmo tempo, sem pressa elegante, só a insistência de quem tem a chave da porta e o resto da noite. Ela gozou outra vez com as coxas tremendo nos meus ombros, um gozo mais fundo, mais feio, a boca distorcida, e eu não parei.

«Nada disto vai para o perfil», ela disse quando conseguiu ar, as palavras saindo entre gemidos. «Eu não quero que isto vire conteúdo. Eu não quero que ninguém veja. Guarda. Só guarda.»

Parei os dedos dentro dela, sentindo as contrações ainda, e olhei para o rosto desfeito. Aquilo era o que eu tinha esperado desde o jantar, desde o momento em que ela apresentou o garçom a uma desconhecida na mesa ao lado como se o restaurante fosse um quarteirão que ela já administrava. Se ela cedesse, o conteúdo deixava de ser o centro da viagem. Se não cedesse, ela voltava a ser só gostada.

«Diz direito», eu pedi. «Diz o que você quer ser.»

Grace fechou os olhos e depois os abriu, e pela primeira vez na noite a brincadeira não voltou.

«Eu quero ser guardada. Não publicada. Eu quero que você me foda e que isto fique aqui, na sala, sem eu ter de apresentar a ninguém.»

Tirei os dedos, subi o corpo dela até a minha boca, e beijei. O beijo veio tarde e veio inteiro, língua, dentes, o gosto da buceta dela ainda na minha mão quando segurei o rosto. Grace beijou como quem tinha esperado o direito de fazer isso, as pernas enroladas na minha cintura, e eu senti o peito dela bater contra o meu. A chave da noite virou naquela frase. Fodi-a outra vez com os dedos enquanto beijava, a buceta tão molhada que a palma estalava, e ela gozou na minha boca com um som que eu engoli.


No silêncio que veio depois abri a bolsa e tirei o anel. Era bijuteria, uma pedra pequena e escura num aro fino que eu tinha comprado num antiquário da Rua da Misericórdia sem pensar em ninguém, e que de repente tinha nome. Segurei a mão esquerda de Grace e meti o anel no dedo anelar, devagar, sentindo o metal frio encontrar a pele quente.

«Isto não é promessa», eu disse. «É para você lembrar que parou de organizar.»

Ela olhou para o anel e depois para mim, o sorriso voltando menor, mais verdadeiro. Limpei a coxa dela com a barra do meu vestido e falei do bairro que ela não tinha publicado. Falei da mercearia na esquina da Balboa onde ela ainda era a rapariga que montava a festa da rua, da senhora que vendia flores e que a chamava pelo nome completo, do porão da igreja onde as caixas de donativos ficavam alinhadas porque ela tinha feito a tabela. Grace emudeceu. Aquilo não estava em perfil nenhum. Eu tinha procurado o que ela tinha deixado para trás de propósito, a São Francisco que ela tinha organizado até cansar de ser a preferida de toda a gente, e tinha trazido isso para Lisboa como uma chave que ela não sabia que eu tinha.

«Como você sabe disso?», ela perguntou, e a voz perdeu o convite.

«Eu coleciono o que as pessoas escondem», eu respondi. «Não só o que elas emolduram.»

Ela fechou a mão com o anel e puxou-me de novo para o sofá, desta vez sem tentar dirigir. Eu deixei. Ficámos ali até a chuva parar, a boca dela no meu pescoço, os dedos dela tímidos na minha buceta por baixo do vestido, aprendendo o ritmo que eu tinha imposto. Quando ela me fez gozar, foi com dois dedos desajeitados e uma concentração absoluta, os olhos em mim, não na sala, e eu segurei o pulso dela até o tremor passar.


De manhã a galeria tinha aquela luz suja de outono que entra mesmo com os estores. Grace dormia no sofá da reserva, a saia arrumada à pressa sobre as coxas, o anel visível quando a mão escorregou para fora da almofada. Vesti o casaco sem barulho. Não deixei número. Não deixei recado no mármore ao lado do telefone dela.

Na mesa da recepção, sob a chave que o segurança ia recolher às nove, deixei um cartão sem brasão. Só o nome de uma academia no Príncipe Real e o da treinadora, escrito à mão, sem apresentação, porque aquela mulher não precisava de ser apresentada a ninguém que eu tivesse escolhido. Grace ia acordar com o gosto da noite na boca, com o anel no dedo, com a certeza de que tinha passado horas sem ligar para ninguém, e sem saber quem eu era de verdade para além da colecionadora que a tinha posto de joelhos. Saí para a calçada molhada e fechei a porta. O cartão ficou. O nome da academia e da treinadora que não precisa de ser apresentada ficou também, à espera de que ela decidisse se o anel saía do dedo ou se ela o assumia.