
Yumiko na Casa de Belgravia
Romance erótico vitorianoHistórico12 min de leitura
Um conto de Yumiko Morita
Yumiko Morita entra numa casa de Belgravia para um retrato que ninguém deve ver. O cavalheiro que a espera não cai nas provocações dela. O chá esfria enquanto ele a põe de joelhos ainda vestida.
A luz de outono entrava enviesada pelas janelas altas do estúdio, já fina e amarelada, e Yumiko Morita, com vinte e dois anos, estava de pé no meio do chão de madeira como se o espaço fosse um palco emprestado. Tínhamos combinado o retrato privado nesta casa de Belgravia, em Londres, e pagara-lhe a estadia para que viesse depois da exposição. Trouxera o quimono na mala, uma peça de seda escura que ainda cheirava a gaveta fechada, e um pente de laca preso no cabelo negro, alto demais para aquela hora do dia. A boca vinha-lhe larga e treinada, a mesma com que deve ter atravessado salas cheias de gente, e percorreu o estúdio com aquela atenção educada de quem já entrou em muitas salas alheias, os olhos a passar pelo linho do fundo, pelo tripé, pelas janelas, sem que nada na postura confessasse nervoso. O perfume era pouco, uma mistura de madeira e de qualquer flor seca, baralhada ao cheiro da seda que ainda trazia da mala.
Aos quarenta e um, já não caía naquela graça. Ofereci-lhe chá numa chávena rasa e vi-a aceitar com os dois dedos, como se a porcelana fizesse parte do número que trazia ensaiado. Riu-se, um som curto, e perguntou se o cavalheiro inglês gostava de mulheres vestidas para festa, se aquilo lhe bastava para o retrato. A pergunta ficou no ar enquanto lhe olhava o pescoço, a linha da mandíbula, o modo como a boca desenhada pedia uma frase e não a recebia. A chávena ficou na mesa baixa, a arrefecer sem que ninguém a tocasse, e encaminhei-a para o fundo de linho claro, onde a luz já começava a falhar.
«Arthur, não queres que me sente?» disse ela, e o nome saiu-lhe leve, quase brincalhão. «Ou preferes-me de pé, a rir para ti?»
Mandei-a virar o rosto para a janela. O quimono abria um pouco na gola, o suficiente para deixar à vista a clavícula, e a pele ali era lisa, sem joia, só a sombra da seda. Ela segurou o tecido entre os dedos e riu outra vez, à espera de qualquer galanteio da minha parte, mas continuei a regular a câmara no tripé, a medir a luz que já definhava contra o linho. Cada gesto dela pedia palco. Cada um dos meus recusava-lho sem comentário. Manteve os lábios curvados mesmo assim, os ombros direitos, como se a recusa fizesse parte do jogo e não o contrário.
Quando a pose ficou quieta, calei-me um instante e chamei-a pelo nome. Aproximei-me até sentir o calor que o quimono retinha. O tecido era mais frio do que a pele por baixo, e o cabelo cheirava a óleo e a laca antiga. Ela ainda tinha a boca composta para o público quando lhe pus a mão no ombro. Fiz com que descesse, devagar, até ficar de joelhos sobre a madeira, ainda vestida. A seda abriu-se-lhe contra as coxas. Atrás de nós, o chá perdia o último fio de vapor.
«Assim?» perguntou, já ajoelhada, a voz ainda leve, e a frase ficou outra vez sem eco.
Fiquei de pé à frente dela e abri os botões da calça sem pressa, porque a pressa era o que ela esperava do palco. Yumiko olhou para cima, os lábios já entreabertos, e a curva treinada da boca não lhe saiu quando tirei o pénis e lho pus contra o lábio inferior, quente, a bater-lhe no queixo. Riu baixo, como se ainda pudesse transformar aquilo em brincadeira, e depois abriu a boca e recebeu-me.
A língua dela era pequena e húmida e passou-me pela glande com uma lentidão que queria ser vista. Os lábios fecharam-se-lhe à volta da haste, quentes, e os olhos não se desviaram. Empurrei mais fundo e senti o céu da boca, o calor, a saliva a juntar-se-lhe nos cantos dos lábios. Segurei-lhe o cabelo junto ao pente, sem o tirar, e usei-lhe a boca com um ritmo firme, a ouvir o som molhado que ela fazia cada vez que recuava e voltava a entrar. Os olhos brilhavam-lhe, húmidos, e a graça teimava mesmo com a boca ocupada, um resto de encenação nos cantos.
«Mais?» perguntou ela quando lhe dei ar, a voz já rouca, e riu outra vez antes de acabar a frase. «É assim que o retrato começa?»
Não lhe devolvi a leveza. Voltei a meter-lho até ela engolir em volta, as mãos pousadas nas minhas coxas, os joelhos abertos sobre a madeira. O quimono escorregara de um ombro e o peito esquerdo aparecia, o mamilo escuro contra a seda. A saliva escorria-lhe pelo queixo e caía na gola. Empurrei até sentir a garganta fechar-se à volta da cabeça do pénis e segurei-a ali um segundo, a olhar para baixo, a ver-lhe as pestanas molhadas e a recusa em largar o espectáculo. Quando a soltei, puxou o ar com um som feio e passou a língua pelos lábios, ainda com aquele resto de encenação no queixo brilhante.
Fodi-lhe a boca outra vez, mais fundo, e senti-lhe a garganta a trabalhar à minha volta, o esforço, o calor apertado. Yumiko não recuou: os dedos apertaram-me as coxas e ela deixou-me usar-lhe a boca até a saliva lhe escorrer pelo pescoço abaixo, até o quimono ficar manchado na gola. A respiração saía-lhe pelo nariz, irregular, e o peito subia de encontro à seda já manchada. O estúdio cheirava a chá frio e a seda húmida. Continuei até a ter exactamente como queria, de joelhos, a boca aberta, o olhar ainda à procura da câmara mesmo quando a câmara não estava a apontar.
Afastei-me só o suficiente para alcançar a câmara e mandei-a ficar exactamente assim, de joelhos, a boca entreaberta, o queixo sujo. Yumiko obedeceu e a boca abriu-se-lhe outra vez, mais larga, como se a objectiva da câmara fosse uma plateia conhecida. Disparei, e o clique soou seco no estúdio já quase sem luz de dia. Disparei outra vez, mais perto, o enquadramento a apanhar-lhe a saliva, a gola caída, os olhos húmidos. O visor mostrava-lhe a boca vermelha, o queixo, a gola destruída, e ela permaneceu imóvel entre os cliques.
Passou o dorso da mão pela boca e sujou-se ainda mais, consciente de que a estava a ver através do visor, a oferecer o queixo, a língua, o peito descoberto. Cada chapa fotográfica era para mim e ela sabia-o e mesmo assim posava, o corpo quieto, o rosto a trabalhar. Mandei-a puxar a seda até os dois peitos ficarem de fora e ela fê-lo com um gesto lento, quase coreografado, os mamilos já duros com o ar frio da sala.
«Fico bem assim?» perguntou ela, e a provocação saiu-lhe sem aresta, à espera de um elogio que não veio. A voz era doce, treinada, a mesma das salas. Continuei a fotografá-la, e o obturador marcou o silêncio. Vi-lhe a cona quando o quimono se abriu de todo sobre as coxas, nua por baixo da seda, já brilhante, e disparei também isso, o enquadramento baixo, a humidade visível. Yumiko não fechou as pernas: a pele das coxas tremia-lhe um pouco com o frio, mas as pernas ficaram abertas. Olhou para a câmara como olharia para um espelho e a curva da boca segurou-se-lhe nos dentes.
Pousei a máquina e ela permaneceu ajoelhada. A porta do estúdio, ao fundo, permanecia apenas encostada, a madeira escura ao alcance de quem quisesse ir embora. Yumiko viu-a e ficou onde estava, e a madeira da porta não se moveu. Baixou os olhos para o chão e depois tornou a erguê-los, à espera.
Agarrei-lhe o braço e levantei-a. A cadeira do retrato estava atrás dela, alta, de madeira escura, o assento largo o bastante para a debruçar. Virei-a de costas para mim. Puxei-lhe o quimono até à cintura e deixei-lhe o rabo nu virado, a cona à mostra entre as coxas. Ela segurou o encosto com as duas mãos e riu para o linho, um riso que já não tinha para onde ir. Encostei a glande à fenda molhada e entrei dum só impulso, fundo, até sentir o fundo dela a receber-me. Estava tão molhada que o movimento não encontrou resistência, só aquele calor fechado que a fez soltar o ar de uma vez.
Yumiko soltou um som baixo, partido, e a máscara tremeu-lhe contra o ombro. Fodi-a com força, as mãos firmes na cintura dela, a seda amarrotada entre os dedos, o som da pele a bater-lhe no rabo a encher o estúdio. Cada pancada fazia-lhe a carne tremer, e a seda, já inútil, amontoava-se-lhe na cintura. A cona apertava-me a cada estocada, quente, escorregadia, e ela empurrava o rabo para trás mesmo quando o fôlego lhe falhava. Vi-lhe os peitos a balançar para os lados da cadeira, os mamilos a roçar a madeira. Segurei-lhe a nuca e dobrei-a mais, até a ter debruçada de verdade, o rosto virado de lado, a boca aberta contra o encosto.
«Arthur.» Disse o nome no meio dum gemido e não acabou a frase. A voz tremeu-lhe e perdeu o treino. Continuei a foder-lhe a cona com um ritmo duro, sem lhe dar a graça que ela tentava ainda pôr na voz. O prazer subia-lhe pelas costas, visível no modo como os ombros se fechavam, no modo como as unhas se cravavam na madeira. Apertou-se à minha volta de repente, um tremor longo, e veio-se com um som abafado, a cona a pulsar, as coxas a tremer contra a cadeira. As ancas ainda lhe davam pequenos solavancos quando continuei, e o som que fazia já não era riso. Não abrandei: fodi-a enquanto o corpo ainda lhe ia naquele tremor, até não aguentar mais. Retirei o pénis e vim-me-lhe nos peitos, o sémen quente a cair-lhe na pele, a escorrer-lhe para a seda, a manchar-lhe os mamilos enquanto ela olhava para baixo e via o que lhe tinha deixado. Vi as gotas a escorrer-lhe entre os peitos. Ela não as limpou: ficou a olhar, a respirar pela boca, as mãos ainda no encosto.
Permaneceu assim uns segundos, debruçada, a respirar, o queixo ainda sujo da boca, os peitos sujos do resto. A curva dos lábios voltou-lhe devagar, mais fina, como se tentasse decidir se aquilo ainda era um número.
Mandei-a sentar-se no chão, as costas contra a perna da cadeira, o quimono aberto, os peitos à mostra, as pernas afastadas. A lâmpada do estúdio já estava acesa, uma luz amarela que lhe batia na pele e lhe fazia brilhar o sémen. Fotografei-a outra vez. A luz era cruel e honesta. Mostrava-lhe a gola suja, o sémen, a cona entreaberta, o pente ainda perfeito. Yumiko não fechou o quimono. Olhou para a porta e depois para mim e ficou exactamente onde a pus, exposta, a cona ainda húmida, o pente de laca intacto no cabelo.
Aproximei-me e pus-lhe o pénis outra vez na boca. Ela recebeu-me sem a pergunta desta vez, os lábios inchados, o gosto dela e o meu misturados na língua. Segurei-lhe a cabeça com as duas mãos e fodi-lhe a garganta a sério, fundo, até ela engasgar e mesmo assim não me empurrar. As lágrimas vieram-lhe aos cantos dos olhos. Uma delas desceu-lhe pela face e parou no canto da boca ocupada. A graça teimava, um hábito, uma armadura pequena.
«Não representes.» A voz saiu-me baixa, perto do cabelo dela. «Não me dês isso.»
Ela ouviu. Os ombros desceram-lhe um pouco, como se a ordem lhe tivesse peso. Empurrei até lhe sentir a garganta aberta à minha volta e segurei-a. Yumiko olhou para cima. Durante uns segundos a máscara caiu-lhe de todo, a boca ocupada, o rosto nu, os olhos só a receber. Não havia graça. Não havia plateia. Havia só a mulher de joelhos, a garganta cheia, o pente ainda preso como se o espectáculo pudesse recomeçar a qualquer instante. Os olhos eram só escuros, sem a plateia lá dentro. Notei-o e guardei aquilo. Depois soltei-a e ela puxou o ar com um som rouco, a saliva a filar-lhe do lábio até ao peito, e a boca tentou recompor-se por reflexo, tardia, menos segura.
Ficou a olhar-me com a boca aberta, à espera de uma ordem, e a língua passou-lhe pelo lábio inchado num gesto pequeno, sem que dissesse palavra. Dei-lhe o que pedia: deitei-a no chão de madeira, o quimono aberto debaixo dela como uma mancha escura, e ajoelhei-me entre as coxas.
Entrei nela de frente, fundo, com as mãos por baixo do rabo, e fodi-a no chão até a madeira ranger. O chão estava frio debaixo dos ombros dela e quente onde as coxas me cingiam. Yumiko arqueou as costas e segurou-me pelos ombros, as pernas à minha volta, a cona ainda apertada do que lhe tinha feito na cadeira. Cada estocada fazia-lhe os peitos saltar, o sémen seco já brilhante na pele, misturado com saliva. Olhei para o pente de laca. Continuava lá, enfiado no cabelo negro, um objecto pequeno e teimoso que ela não tirava mesmo comigo dentro dela, mesmo com a boca usada, mesmo com o chão frio nas omoplatas.
«Queres ser usada assim.» Não fiz da frase uma pergunta. Vi-lhe o corpo responder antes da boca, as ancas a subir, a cona a molhar-me até à raiz. A boca abriu-se-lhe sem som. «Sem a graça. Sem o riso. É isso que vieste buscar a esta casa.»
Ela mordeu o lábio e não desmentiu. O lábio ficou-lhe marcado a branco onde os dentes apertaram. Fodi-a mais devagar durante uns instantes, fundo, a esfregar-lhe o púbis, a ver-lhe o ventre tremer, e depois voltei à força, o som molhado a encher a sala, as coxas dela abertas demais para qualquer pose. Veio-se outra vez com o rosto virado para o lado, um gemido longo que não tinha sorriso nenhum no meio, as unhas nas minhas costas, a cona a apertar-me em vagas. Aguentei o suficiente para a ver acabar e depois vim-me dentro dela, fundo, o corpo a descarregar-lhe no ventre, as mãos cravadas no quimono, a respiração contra o cabelo onde o pente continuava, intocado, como se ela ainda não tivesse decidido largar o último resto de encenação.
Ficámos assim no chão, eu ainda dentro dela, o estúdio em silêncio à excepção da nossa respiração. Yumiko tinha os olhos abertos, húmidos, e a boca ainda não se lhe tinha voltado a compor de todo. Passei-lhe o polegar pelo canto da boca, onde a saliva tinha secado, e ela não o tirou.
Levantei-me primeiro. Recolhi as chapas fotográficas e guardei-as na caixa de madeira, a tampa a fechar-se com um clique seco que ela ouviu de onde estava. Yumiko sentou-se, puxou o quimono sobre os peitos sem o fechar de verdade, e perguntou se podia ver. Sacudi a cabeça e não lhas mostrei. Aquilo ficava nesta casa e em mais nenhum sítio, e ela percebeu-o pelo modo como voltei as costas à caixa. Aceitou o recuo com um aceno mínimo, quase uma educação de sala, e puxou a seda contra a pele suja como quem se cobre sem se esconder.
Vestiu-se devagar, a seda manchada na gola e no peito, o pente ainda no sítio. À porta do estúdio parou, o telemóvel na mão, e olhou para mim como quem oferece um número sem o dizer em voz alta. Não estendi a mão nem pedi nada. Yumiko ficou uns segundos com o ecrã aceso, o polegar parado, e depois guardou o aparelho sem ter deixado o contacto.
A boca tentou voltar-lhe aos lábios e não chegou a completar-se. Vi-lhe o rosto nesse intervalo, o mesmo rosto dos segundos em que lhe fodi a garganta e ela não representou, e percebi que queria aquilo outra vez, aquela ausência curta de graça, e que saía dali com medo de que o próximo homem fizesse o mesmo recusar. Tocou no pente, um gesto rápido, e não o tirou. Abriu a porta, o corredor da casa já escuro, e foi-se embora com o cabelo ainda preso e a pergunta por responder, se a tinha querido a ela ou só ao espectáculo que teimava em não largar. O pente brilhou-lhe uma última vez na luz do estúdio antes de a porta se fechar.