
A luz de outono caía já baixa sobre os telhados de Marvila quando a porta da oficina se abriu e ela entrou sem bater. Mei Ling atravessou o cheiro a cola e a pele curtida com o casaco desapertado, e as marcas pálidas do látex ainda lhe cingiam o pescoço e os pulsos, vestígios da peça que tinha deixado para trás. Tinha vinte e três anos e sorria como quem corta a frase a meio porque decide que o outro já percebeu. Eu tinha quarenta e um, as unhas pretas de cera, e a piada do couro, dita ainda com o látex colado à pele, tinha-a trazido até aqui. O cabelo negro caía-lhe desordenado sobre a clavícula, ainda com o cheiro doce do camarim, e os olhos pretos percorriam a bancada, os ganchos, o capote de cabedal aberto sobre a madeira, como se estivesse a medir o sítio antes de se meter nele. Não lhe perguntei nada e continuei a alisar aquele capote sobre a bancada, a deixar que o silêncio fizesse o trabalho que as palavras dela tanto gostavam de adiar.
Ela aproximou-se o suficiente para o cheiro da pele dela se misturar com o da oficina. Passou dois dedos pelo cinto que tinha acabado de furar e falou baixo, quase a rir do próprio gesto.
«Então é isto. O homem do cabedal. Pensei que fosses mais conversa.»
Levantei os olhos e olhei-a de frente, sem lhe devolver o sorriso, e vi a hesitação a nascer-lhe na boca antes de ela a disfarçar. Os lábios pintados tinham já o vermelho gasto da noite, e o pulso, quando lhe saiu do cinto, tremeu um instante contra a fivela.
«Ficas ou sais», disse-lhe. «Se ficas, calas a graça. Se sais, a porta está aberta.»
Mei Ling segurou o cinto entre o polegar e o indicador e pesou o couro. O sorriso morreu-lhe sem chegar ao fim da cara.
«Fico.»
Mandei-a chegar-se à bancada e tirei do gancho o casaco de mota, aquele de cabedal grosso, ainda quente do sítio onde tinha estado a secar. Vesti-lho por cima da camisola fina. Fechei-lhe os botões um a um até ao peito, e as mãos dela ficaram presas dentro das mangas largas, como se o casaco tivesse opinião própria. Baixei-lhe as calças de cabedal até aos joelhos, devagar, e o pano cedeu com um som curto. Ficou ali, a mulher de rabo nu sobre o chão de cimento, as coxas apertadas pelo cabedal que já não a deixava abrir as pernas como queria, e a cona visível, já brilhante, quando a virei de frente para a madeira. A camisola fina subia-lhe com a respiração, e por baixo do casaco adivinhavam-se as tetas pesadas, os mamilos já duros contra o forro.
Passei-lhe a palma pela racha e ela molhou-me os dedos à primeira, a boca fechada sobre o que poderia ter dito. Encostei-a de barriga à bancada. Abri-lhe as nádegas com as duas mãos e lambei-lhe a cona de baixo para cima até ela tremer contra o tampo. O gosto era a pele e a humidade, e Mei Ling empurrou o rabo para trás contra a boca, a pedir mais sem usar a voz de palco. A língua encontrou-lhe o clitóris inchado e ela soltou um ar preso, os dedos a procurarem o bordo da madeira sem o encontrarem de verdade. Meti-lhe dois dedos de uma vez, curvei-os, e senti a parede quente a fechar-se.
«Assim», murmurou ela contra o couro da bancada, e o som saiu-lhe partido, sem o corte elegante com que costumava deixar as frases a meio.
Tirei o pau da braguilha, já duro de a ter ali daquela maneira, e esfreguei a cabeça na fenda molhada até escorregar sozinha. Entrei-lhe de um só impulso, até ao fundo, e o gemido que lhe saiu veio cru, sem volta. O casaco subiu-lhe nas costas com o movimento, as calças prenderam-lhe os joelhos, e fodi-a assim, curta e fundo, com a mão na nuca a manter-lhe a cara virada para a pele que tinha estado a trabalhar. Cada estocada fazia-lhe as tetas baterem no tampo por baixo do cabedal, e ela molhava-me o pau a cada saída, um fio quente a escorrer-lhe pela coxa abaixo até ao joelho preso. A oficina inteira parecia ter encolhido à volta daquele tampo, e o único som que restava era o da carne molhada e o da respiração dela, irregular, a bater contra o capote.
Agarrei-lhe os pulsos e trouxe-lhos para as costas. Cruzei-lhos por cima do casaco e segurei-os com uma mão só. Mei Ling podia ter-se soltado e não se soltou. Abriu mais o rabo no pouco espaço que as calças lhe deixavam e empurrou-se contra mim quando saí quase todo para voltar a meter de uma vez. A cona dela apertava, quente, e ouvia-se o som molhado na oficina vazia, misturado com a respiração dela contra a madeira.
«Olha para mim», disse-lhe, e ela torceu o pescoço o suficiente para me apanhar com o canto do olho, a boca aberta, o rosto sem defesa.
Chamei-lhe puta baixinho, junto ao ouvido, e senti-lhe a cona a contrair em volta do pau como se a palavra lhe tivesse chegado ao sítio certo.
«É o que queres que te chame, não é.»
Ela assentiu com a cara ainda no couro, um movimento pequeno, e fodi-a mais fundo, as ancas a baterem-lhe nas nádegas nuas, o cinto da minha calça a tocar-lhe a pele a cada embate. A oficina cheirava agora a ela, a sexo e a cola, e o outono batia no vidro alto sem conseguir entrar. Continuei até as pernas lhe tremerem de verdade, até o joelho direito escorregar no cimento, e só então abrandei, deixando-lhe o pau lá dentro, parado, a pulsar.
Mei Ling respirou contra a bancada e a voz saiu-lhe outra, mais baixa, sem o jogo de quem já sabe o remate.
«Não pares.»
Apertei-lhe os pulsos um pouco mais e voltei a mexer, curto, só a cabeça a entrar e a sair daquela cona inchada, e ela choramingou de um modo que não era teatro. Vi-lhe as unhas cravarem-se no próprio casaco. Vi-lhe a boca a procurar um sítio onde morder e a encontrar só o tampo. A mulher que puxava o público tinha ficado do lado de fora da porta, e o que restava pedia com o corpo inteiro, o rabo a encontrar o ritmo sozinho, as calças de cabedal a marcarem-lhe a carne vermelha dos joelhos.
«Mais fundo», pediu ela, a frase partida ao meio, e o pedido não tinha público nenhum, só a madeira e o cheiro a cola.
Soltei-lhe os pulsos. Tirei o cinto das calças num puxão só e dobrei-o a meio. Mei Ling olhou para trás por cima do ombro, viu o couro na minha mão, e o rosto ficou quieto. Encostei-lhe a tira fria ao rabo, deixei-a sentir a largura, e ela arqueou-se para a receber ainda com o pau a meio. A primeira estalada soou seca na oficina e deixou-lhe uma faixa escura de imediato. Ela ofegou, enterrou a testa no capote que estava estendido ao lado, e disse o meu nome como se o tivesse acabado de aprender.
«Vasco.»
Bati-lhe outra vez, mais baixo, na curva da nádega, e o corpo dela fechou-se em volta do pau com uma força que me tirou o ar. Continuei, um lado e o outro, o cinto a encontrar a carne já quente, e entre as pancadas fodia-a fundo para ela não ter tempo de voltar a pôr a máscara. Mei Ling pedia mais com a voz estragada, e cada «mais» saía-lhe misturado com um soluço que ela não tentava esconder. A pele do rabo ficou-lhe marcada em faixas, o calor a subir-lhe até à lombar, e passei-lhe a palma por cima das marcas para ela as sentir com a minha mão depois de as sentir com o couro.
«Pede o cinto», disse-lhe. «Pede o pau. Sem rires.»
Ela tardou um instante, a respiração presa, as mãos abertas sobre a bancada, e quando falou a frase veio limpa de qualquer recorte.
«Quero o cinto. Quero o teu pau. Bate-me e fode-me até eu não conseguir falar.»
O pedido ficou no ar da oficina como uma coisa pesada, e dei-lhe o que pedia. O cinto estalou-lhe no rabo ao mesmo tempo que lhe enterrei o caralho até ao fundo, e Mei Ling gritou contra o couro, um som feio e verdadeiro, as pernas a tremerem dentro das calças presas aos joelhos.
Fodi-a assim, com o cinto na mão esquerda e a direita a prender-lhe a nuca. Ela veio-se com a cara esmagada no couro da bancada, a chorar alto, a cona a puxar-me em vagas apertadas que me obrigaram a parar no fundo para não acabar também. O choro não tinha número nem plateia. As lágrimas escorriam-lhe para o capote e o corpo inteiro sacudia-se, a vir-se e a chorar ao mesmo tempo, a boca aberta contra a pele que tinha alisado ao fim da tarde. Segurei-a pelos quadris para ela não escorregar, deixei-lhe o pau lá dentro enquanto as contrações iam passando, e passei-lhe o cinto ainda dobrado pelas nádegas quentes, só a lembrar-lhe que estava ali.
Quando conseguiu respirar, olhou para o lado, o rímel escorrido, e não tentou arranjar o rosto para ninguém.
«Outra», pediu.
Dei-lhe outra pancada, mais funda, e ela gemeu com a boca molhada de saliva e de choro, o rabo a oferecer-se outra vez. Voltei a fodê-la, agora mais lento, a sentir-lhe cada marca contra a bacia, e Mei Ling falava aos bocados, coisas sem arranjo, o meu nome, o cinto, o pau, pedia para não parar, pedia para a usar daquela maneira até não restar voz. A cona dela estava tão molhada que escorria pelo saco quando saía, e o tampo da bancada reluzia entre as coxas dela, um rasto claro que o cabedal das calças não conseguia apanhar.
Tirei-me de dentro antes de acabar. Virei-a o suficiente para lhe ver as tetas a saírem-lhe do casaco aberto, e voltei a meter de frente, com ela sentada na beira da bancada, as calças ainda nos joelhos a impedirem-na de fechar as pernas. Segurei-lhe a cara com uma mão e fodi-a a olhá-la, e ela aguentou o olhar sem desviar, a chorar ainda, e veio-se outra vez com um som partido que lhe nasceu no peito. Apertei-lhe o queixo.
«Isto não é palco.»
Ela fez que sim, um gesto pequeno, e veio-se na minha mão quando lhe apertei o clitóris entre o polegar e o pau que a enchia, o corpo a dobrar-se para a frente, a testa a bater-me no ombro.
Saí-lhe de dentro e pus-lhe a mão nas costas para a deitar outra vez de barriga sobre o tampo. Vim-me-lhe nas costas e no casaco, o leite quente a sair aos puxões sobre o cabedal escuro e sobre a pele marcada do cinto. Segurei-lhe o rabo aberto enquanto acabava, vi o branco a escorrer-lhe para a lombar e a apanhar as faixas vermelhas, e Mei Ling ficou quieta a receber, a respirar contra o couro, sem uma única frase pronta. Passei-lhe o pau na fenda do rabo, deixei-lhe o resto entre as nádegas, e só então falei, a voz baixa, o pulso ainda a tremer-me na mão que lhe segurava a anca.
«Vais sair vestida daquilo. Casaco, porra, marcas. Não arranjas outra roupa.»
Ela chorou outra vez, os ombros a abanarem debaixo do cabedal pesado, sem pôr o choro em pose nenhuma, e deixei-a chorar. Limpei-lhe a cara com a parte de dentro do pulso, um gesto curto, e ela agarrou-me aquele pulso contra a boca durante um instante, os lábios molhados, sem beijo, só a necessidade de ter ali uma pele que não fosse a dela. A noite entrou pela oficina sem que ninguém acendesse mais luzes. Ficámos naquela bancada o tempo que o corpo dela precisou para parar de tremer, o casaco colado às costas pelo que lhe tinha deixado, as calças ainda pelos joelhos como uma coisa que não lhe ia subir.
Mais tarde, já no escuro, voltei a meter-lhe os dedos na cona inchada. Ela abriu-se sem defesa, um gemido fundo, e fodi-a outra vez devagar, de lado, o cinto ao alcance da mão, só para ela sentir o couro contra a barriga enquanto lha enchia outra vez. Veio-se calada, as unhas no antebraço, e adormeceu assim, com o casaco por cima e as marcas do cinto a pulsar-lhe no rabo. Acordei-a de madrugada só para lhe passar a palma pelas faixas e confirmar que estavam ali, quentes. Ela não abriu a boca para nada, encostou a cara ao peito e ficou.
De manhã a voz não lhe voltou inteira. Mei Ling falou pouco, as frases completas, sem aquele corte no ar que lhe conhecera à entrada, e vestiu o casaco por cima de tudo, o cabedal rígido nas costas onde o leite tinha secado. As marcas do cinto viam-se-lhe quando o casaco subia, uma linha escura acima do cós, e ela não as escondeu. Sentei-a outra vez na beira da bancada, pus-lhe nas mãos um par de luvas de mota, cabedal grosso, forradas, do tamanho certo, e fechei-lhe os dedos por cima delas.
«As mãos que acabam isto não são as minhas», disse-lhe.
Ela olhou para as luvas, olhou para as minhas mãos ainda por cima das dela, e não calçou nenhuma. Deixou as palmas viradas para cima debaixo das minhas, um instante em que pareceu querer que eu as cobrisse de propósito, os polegares a procurarem o sítio onde os meus lhe tapavam os pulsos. Depois meteu as luvas na mala, assim, sem as usar, e apertou o fecho com um movimento lento. O casaco ficou-lhe pelos ombros, as marcas por baixo, e a mulher atravessou a oficina cheirando a couro e a mim. À porta, olhou para as próprias mãos nuas como quem mede um sítio que ainda não tem, e saiu para a manhã fria de Marvila com a mala contra o peito e as luvas lá dentro, intactas.