
O corredor do arquivo de têxteis estava às escuras para além da porta de vidro, e a única luz acesa era a do laboratório de conservação, uma claridade branca demais para aquela hora da noite. Lisboa lambeu os vidros com uma chuva miúda de inverno enquanto fechava as gavetas forradas a papel neutro, o papel que se interpõe entre as peças para que o tempo não as acidifique. Tinha trinta e oito anos e o hábito de não tocar em nada precioso com a pele nua, o que naquela sala queria dizer quase tudo o que importava.
Mei Ling entrou sem bater. Trazia a mala premida contra o casaco molhado e, depois de um instante no limiar, pousou em cima da mesa de exame um par de luvas de mota ainda fechadas, o único rasto que trouxera de outra noite. Tinha vinte e três anos. O cabelo, pesado de chuva, colava-se-lhe à testa, e os olhos desceram logo para as minhas mãos, como se já soubesse o que vinha pedir.
«Queria ver as de ópera», disse ela, e cortou ali a frase, como se houvesse a obrigação de adivinhar o resto.
Abri a gaveta das luvas longas de cabedal, pretas, que tinham pertencido a uma cantora cujo nome já ninguém cantava na cidade. Calcei primeiro o algodão fino e só depois o cabedal por cima, e o gesto era o de sempre: proteger a peça, proteger a mão, não deixar rasto de gordura nem de calor. A mulher acompanhou cada dedo a desaparecer dentro do couro com uma atenção que não era de visita nem de estudo. Chegou-se à mesa e abriu o casaco. O vestido que trazia por baixo era fino demais para a noite lisboeta, um tecido que o frio atravessava sem esforço.
«Manuseias tudo assim», observou, e não era pergunta. Segurou-me o pulso enluvado e levou os dedos à boca sem mais licença do que aquela frase. «Quero o mesmo. No corpo. Não tires.»
A boca dela era quente e o cabedal ficou logo brilhante de saliva. Chupou o indicador e o médio como se o gosto do couro antigo fosse o que tinha vindo buscar, e os dentes roçaram a costura sem a romper. Senti-lhe a língua a trabalhar o espaço entre os dedos, a molhar o interior da luva pelo lado de fora, e o laboratório inteiro pareceu reduzir-se àquele ponto de pressão. Ela puxou-me a mão mais fundo, até o polegar lhe assentar no canto da boca, e olhou-me por cima da luva com um desafio quieto, quase brincalhão, que pedia para eu não recuar.
Deixei-a chupar enquanto a outra mão, também vestida de couro, lhe descia pelo pescoço e lhe abria o decote com o cuidado com que se desdobra um tecido frágil. Os peitos apareceram sem sutiã, os mamilos já duros do frio da sala, e passei-lhe a palma enluvada por cima, o cabedal a arrastar-se na pele com um som seco e baixo. Ela arqueou-se contra a mesa de exame e abriu mais a boca, a deixar-me meter os dois dedos até à garganta. Um fio de saliva escorreu-lhe pelo queixo até ao peito e ficou ali a brilhar sob a luz branca.
«Assim», murmurou quando a mão saiu da boca, a voz já irregular. «Trata-me como tratas as peças. Sou para ser manuseada, Nuno. Não me toques a descoberto.»
A frase caiu entre nós com o peso de uma regra. Aceitei-a sem discutir, porque o pedido vinha dela e porque as minhas mãos já não queriam outra coisa senão aquele couro entre a pele dela e a minha. Empurrei-lhe o vestido para a cintura. Por baixo, as cuecas estavam molhadas, o tecido colado à cona. Puxei-as ao longo das coxas com os dedos enluvados, sem lhe dar a pele. Ela ajudou, levantando um pé e depois o outro, e ficou sentada na borda da mesa, as pernas abertas para a luz fria, a cona à vista, brilhante, à espera.
Passei-lhe o dorso da luva pelos lábios, devagar, e ela tremeu. O cabedal escureceu logo com o molhado dela. «Estás a sujar uma peça de arquivo», disse-lhe, e a voz saiu mais baixa do que se pretendia. Ela riu-se, um riso curto, e empurrou a anca para a frente, a esfregar-se contra a palma como se quisesse deixar marca.
«Então conserva-me suja», respondeu, e abriu mais as pernas. «Mete. Quero senti-las lá dentro.»
Enfiei-lhe o indicador enluvado na cona de uma vez só, até ao fundo, e o couro entrou com um som húmido que encheu a sala. Ela fechou os olhos e segurou-se à borda da mesa, os nós dos dedos brancos de força, e o indicador curvou-se à procura daquele ponto que a fez soltar o ar todo de uma assentada. Acrescentei o médio, a esticá-la, e o cabedal ficou saturado dela, quente, a luzir. Fodi-a assim com a mão, devagar no princípio, depois com uma regularidade de quem conhece o ofício de insistir sem rasgar, e ela começou a mexer-se ao encontro dos dedos, a cona a apertar o couro a cada estocada.
«Olha para mim», pedi. Olhou, a boca entreaberta, a saliva ainda no queixo, e havia ali uma rendição que ela própria tinha escolhido, suja e lúcida. «Diz o que és enquanto te meto isto.»
«Uma coisa que se maneja de luvas», disse, e a frase tremeu-lhe no fim. «A tua puta de arquivo. Não pares.»
Aumentei o ritmo e o polegar enluvado encontrou-lhe o clitóris por cima, a esfregar em círculos curtos enquanto os dois dedos lhe saíam e lhe entravam na cona com um chapinhar baixo, obsceno naquela sala de silêncio profissional. O cheiro dela misturou-se com o da lã antiga e com o do cabedal molhado. Mei Ling deixou cair a cabeça para trás, o cabelo a bater-lhe nas omoplatas, e um gemido longo subiu-lhe da garganta quando os dedos se curvaram com mais força. A cona fechou-se à volta da luva numa contração que apertou os ossos da mão, e ela veio-se assim, nos dedos vestidos, o corpo a sacudir em silêncio primeiro e depois com um som rouco que não tentou esconder.
Mantive-lhe a mão lá dentro enquanto as ondas passavam, a sentir cada aperto através do couro, e só a retirei quando ela lhe pousou a própria mão por cima, a impedir a saída de todo. Os dedos saíram brilhantes, o cabedal escuro até ao pulso, e ela olhou para aquela evidência com uma fome que não era de palco.
«Outra vez», pediu, já a puxar-me a mão de volta para entre as pernas. «E o cu também. Quero as duas. Quero que me uses como se eu não tivesse pele que mereça a tua.»
Houve um instante em que o conservador em mim pensou no risco, na costura, no valor da peça que estava a destruir de propósito. Depois o olhar caiu sobre ela, nua da cintura para baixo na mesa de exame, a pedir para ser tratada pior, e o pensamento profissional desfez-se. Passei-lhe os dedos molhados da cona até ao cu, a untar o anel com o que ela própria tinha dado, e pressionei o indicador contra a resistência. Ela respirou fundo e empurrou-se contra a luva, a abrir-se, e o dedo entrou-lhe no cu até à junta, o cabedal a desaparecer ali com a mesma cerimónia lenta com que se introduz uma ferramenta numa prega difícil.
«Fala», disse-lhe, a mexer o dedo dentro do cu enquanto o polegar lhe voltava à cona. «Quero ouvir-te a pedir.»
«Fode-me o cu com a luva», pediu, e a voz já não tinha a brincadeira de à chegada, só a precisão de quem sabe o que quer. «Mete outro. Enche-me. Não me dês a mão nua, Nuno. Se tirares, acabo.»
Meti-lhe o segundo dedo no cu com paciência, a deixá-la acostumar-se ao volume do couro, e ela mordeu o lábio até ficar branco. A mesa rangeu de leve quando ela recuou as ancas e depois voltou, a foder-se sozinha nos dedos, a cona a pingar para o tampo de aço inoxidável. Houve ali uma ternura estranha, o cuidado de não a magoar misturado com a vontade de a ver desfeita, e limpei-lhe a testa com o dorso da outra luva, o único carinho que as regras dela permitiam.
«Porque é que isto», perguntei, e o gesto da mão enluvada bastou para nomear a sala, as luvas, o que estávamos a fazer ao silêncio do arquivo. Ela não contou origem nenhuma. Olhou para os pulsos vestidos e devolveu a pergunta ao que acabara de lhe meter no corpo.
«Porque tu calçaste isto para me tocares», disse, e sorriu de lado, curto. «O resto é conversa de quem não está a foder.»
Aceitei o recuo sem insistir. Tirei-lhe os dedos do cu com lentidão, o cabedal a sair brilhante, e abri o cinto com a mão que ainda estava relativamente limpa. O pau saiu duro, já a bater contra o tampo quando a distância entre nós se fechou, e alinhei a cabeça na cona molhada sem lhe pôr as palmas na pele. Segurei-lhe as ancas por cima do vestido encavalitado, o couro a marcar-lhe a carne através do tecido, e entrei nela de um só movimento até ao fundo. O calor da cona fechou-se à volta do pau com uma urgência que as luvas não conseguiam imitar, e mesmo assim foram as mãos vestidas que ela segurou, os pulsos, as costuras, como se o resto do corpo fosse acessório.
Fodi-a na mesa de exame com estocadas fundas, o tampo a tremer, as luvas a deixar marcas escuras na pele das ancas sempre que a apertava. Ela envolveu-me as coxas com as pernas e puxou-me mais para dentro, a cona a fazer um som molhado a cada vez que o pau saía quase todo e voltava. A luz branca do laboratório não perdoava nada: via-se o pau a desaparecer nela, via-se o cabedal a brilhar com os sucos, via-se a boca dela a procurar um dedo enluvado para chupar enquanto a fodia.
«Mais fundo», pediu contra a luva. «Usa-me. A mesa aguenta. Eu aguento. Trata-me como uma peça que não se pode tocar sem isto.»
Obedeci ao insulto que ela própria queria. Chamei-lhe puta baixinho, contra o cabelo, e ela veio-se outra vez com o pau lá dentro, a cona a ordenhar, um gemido partido que ela abafou na palma enluvada. Continuei, sem lhe dar trégua, a foder naquele aperto até o prazer dela passar a um excesso que a fez tentar fechar as pernas. Segurei-lhas abertas com as mãos cobertas, o cabedal a escorregar na parte de dentro das coxas, e não parei.
Tirei-lhe o pau da cona quando senti que não ia aguentar, e a cabeça veio à luz, vermelha, brilhante dela. Ela percebeu e puxou-me as mãos para a frente, as palmas viradas para cima, o cabedal das luvas de ópera estendido como uma oferenda. Vim-me assim, sobre o couro, o leite a cair às goladas quentes no preto das luvas, a escorrer-lhe entre os dedos que ela segurava abertos. A primeira porção bateu-lhe na palma, a segunda no pulso, e o cheiro do sémen misturou-se com o do cabedal molhado num odor denso que não pertencia a nenhum protocolo de conservação.
Mei Ling não esperou por nenhuma palavra. Baixou a cabeça e lambeu o leite de cima da luva com uma língua larga, devagar, a apanhar o que escorria para o punho, e os olhos dela não se desviaram dos meus enquanto o fazia. Chupou-me o indicador enluvado outra vez, agora com o gosto de nós os dois no couro, e um fio branco esticou-se-lhe do lábio quando se afastou.
«Outra», pediu, e virou-me a outra mão. Lambeu essa também, o dorso, a palma, o espaço entre os dedos, até o cabedal ficar outra vez só escuro de saliva. Depois encostou a face à luva, a boca aberta contra o pulso, e ficou assim um momento, a respirar o cheiro, nua e quieta em cima da mesa.
Passei-lhe os dedos limpos pelo cabelo, ainda vestidos, e ela fechou os olhos. A degradação que ambos tínhamos pedido estava ali, visível, no leite que ela tinha engolido do couro, e não havia nisso vergonha que ela quisesse desfazer. Havia só o pedido seguinte, dito quase contra a costura da luva.
«Não descalces. Nem para dormir. Fica. Quero acordar e tu ainda teres isto nas mãos.»
Havia um catre estreito no cubículo ao lado do laboratório, o sítio onde às vezes se passava a noite quando uma peça exigia humidade estável até de madrugada. Levei-a para lá sem lhe dar o braço nu, só a palma enluvada nas costas, e ela deitou-se de lado, ainda com o vestido à cintura, e puxou-me a mão para lhe ficar entre as pernas, os dedos pousados na cona, o couro a arrefecer no molhado. Apaguei a luz grande e deixei só o candeeiro baixo do cubículo. A chuva continuava nos vidros altos.
«Dorme assim», murmurou ela, já com a voz de quem está a cair. «Se tirares, acordo. Se tirares, o palco volta vazio.»
Fiquei, como ela pedia, sem discutir o que aquilo fazia às mãos. A luva entre as coxas dela foi o último ponto de calor da noite. Ouvi-a adormecer pelo modo como a respiração alongou, e o corpo dela, de vez em quando, apertava os dedos enluvados como se quisesse confirmar que o couro ainda estava lá. Não descalcei. As mãos latejaram dentro do algodão e do cabedal, o leite seco a puxar a pele por baixo, e mesmo assim não tirei nada. Havia naquela obediência uma rendição minha que ela tinha pedido e que, contra todos os hábitos da sala, lhe foi dada inteira.
A madrugada entrou cinzenta pelo vidro. Ela acordou primeiro, ou talvez ao mesmo tempo, e a primeira coisa que fez foi tocar-me o pulso para sentir a luva. Sorriu de leve e não pediu a boca nua nem o peito descoberto. Pediu só que lhe metesse outra vez os dedos, devagar, só para lembrar ao corpo que a regra se tinha mantido. Fodi-a com a mão naquela luz feia da manhã, a cona já outra vez molhada, e ela veio-se em silêncio, a cara escondida no ombro vestido, um orgasmo curto e fundo que a deixou a tremer contra o cabedal.
Vestiu-se no laboratório com as mesmas mãos a passar-lhe o casaco pelos ombros, sempre o couro, nunca a pele. A mala ficou na mesa, as luvas de mota ainda lá dentro, e ela olhou para as palmas como se o resto da cidade não tivesse nada que as substituísse. Lá fora o inverno de Lisboa continuava, a rua molhada, o dia a começar tarde.
«Tenho ensaio», disse, a abotoar o casaco sem pressa. Olhou para as luvas de ópera, ainda postas, ainda escuras do que tínhamos feito, e a frase seguinte veio baixa, sem teatro. «Lá ninguém calça isto. A temporada continua. E eu já só danço se alguém me vestir as mãos.»
Ficámos os dois naquela frase, o arquivo ainda cheirava a nós, as luvas onde ela tinha pedido que ficassem. Ela saiu pela porta das traseiras com a mala contra o peito, e da mesa de exame viram-se-lhe as costas a desaparecer no corredor frio, à espera de um par de mãos cobertas que o teatro, percebia-se já pelo modo como falara, não lhe ia dar.