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Nightfolio

Canal Aberto

Eu sabia de cor o artigo do contrato e o clique do rádio no ombro. Afonso Mendes pagava a minha temporada em Comporta; a mãe dele votava a parceria de Madrid; eu fingia que o microfone me impedia de lhe puxar a mão mais abaixo da cintura.

O clique outra vez. Sempre no ombro esquerdo. O Motorola puxava o tecido do vestido preto no sítio exacto em que o bolso escondia o microfone. Sabia o artigo de cor. Sétimo. A anfitriã não se envolve com a direcção. Quem assinava a minha escala era o Afonso Mendes. Quem falava no canal dois era a mãe dele. Tinha vinte e três anos e fingia que o microfone me impedia de lhe puxar a mão.

O corredor de staff cheirava a lixívia e a linho quente. Fim de tarde em Comporta. O cocktail do pôr do sol tinha acabado. Os hóspedes ainda riam no salão. Eu estava de costas para ele quando chegou atrás de mim.

«O pack escorregou», disse o Afonso.

Tinha vinte e nove anos e a voz baixa demais para aquele sítio. As mãos subiram-me pelas omoplatas. Ajustou a fita. A palma ficou na cinta do vestido. Não tirou. Senti o calor pelos dedos. Senti o pulso. Senti o sítio onde o contrato mandava parar.

Podia ter dado um passo. Não dei. Virei o pescoço. Os olhos dele estavam perto demais. A respiração mudou. A minha também.

«Está torto», disse eu. «Nas fotografias o tecido falha.»

Puxei-lhe o pulso para a cintura. Foi a brincar. Foi a sério. Os dois ao mesmo tempo. A boca dele parou a um palmo da minha. Vi o lábio de baixo. Quase.

Dois círculos cor-de-rosa nasceram na base da garganta. O sinal verdadeiro. Os hóspedes nunca provocavam aquilo. Só ele. Engoli saliva. Ele inclinou a cabeça.

O rádio estalou no ombro.

A voz da mãe saiu nítida no canal dois. Pediu o relatório da noite. Pediu números. Pediu o nome de quem tinha ficado no recinto depois das dez.

Afonso fechou a boca. Ri pelo nariz uma vez. Voltei o corpo para a porta do salão. Ele ainda tinha a mão na cinta. Tirou. O clique ficou no ar entre nós.

«O relatório», disse eu.

«Eu sei», disse ele.

Nenhum dos dois disse a cláusula. Os dois sabíamos. Se ela ouvisse o silêncio certo, a minha temporada acabava em agosto. O voto dela na parceria de Madrid ia comigo. Entrei no salão com o sorriso de anfitriã. Ele ficou no corredor. O Motorola pesava no ombro como uma segunda mão.

Chovia no parque de staff na noite seguinte. Entrei no escritório para devolver o clip dourado da reserva. Fechei a porta com o calcanhar. A fechadura não tinha chave. Ele estava sentado à mesa de carvalho com o e-mail dos advogados de Madrid aberto e por mandar.

«María.»

«Não vim falar do relatório.»

O rádio ficou mudo no ombro. Caminhei até ele. Não se levantou. Isso também era uma decisão. Pus-me de joelhos no tapete. Fiquei debaixo da mesa, o vestido a subir nas coxas, o clip frio contra a clavícula. As mãos dele pairaram no teclado e pararam. O cursor piscava no sítio da assinatura.

«A anfitriã não pode», começou ele.

«A anfitriã já está de joelhos. O e-mail espera.»

Abri-lhe as calças. Tirei-lhe o pau. Estava duro, a cabeça já molhada. Passei a língua no sítio salgado, devagar, a olhar para cima só para o ver a perder a frase. Ele segurou o tampo da mesa. Meti-o na boca. Chupei devagar primeiro, a deixar a saliva escorrer-lhe até à base, o sabor a pele e a sabão da casa de banho de staff. Depois mais fundo. A ponta bateu-me na garganta. Os olhos lacrimejaram. Não recuei. A gola do vestido preto subiu. O clip dourado tinia contra o osso. Ouvi a respiração dele a falhar por cima do ecrã aceso.

«Espera», disse ele. «A porta.»

«Está fechada. Manda o e-mail se for preciso.»

Não mandou. Chupei com força. A língua no veio. A mão a fechar-se na base, o polegar no sítio que o fazia tremer o joelho contra a minha omoplata. Ele tentou dizer o artigo e saiu-lhe só um som. Decidi o ritmo. Ele deixou. Notei que podia parar. Não parei. Cada vez que o canal dois estalava mudo no ombro, eu descia mais, até o ter todo na boca e o nariz contra o pano das calças.

Gozou com um ruído baixo demais para o corredor. A porra veio quente, espessa. Encheu-me a boca mais depressa do que eu engolia. Engoli. Engoli outra vez. O que escapou escorreu-me pelo queixo e entrou no decote. Limpei o canto da boca com o dorso da mão. Levantei-me. O batom tinha ficado no forro das calças dele, vermelho no sítio onde a mãe nunca ia olhar.

O carimbo horário do e-mail piscou no ecrã. Continuava por mandar. Deixei o clip dourado em cima do dossier azul de Madrid.

«Agora podes escrever», disse eu.

Olhou para a minha boca. Olhou para a porta. Não disse o sétimo artigo. Saí com o rádio ainda mudo e a chuva a bater no parque. No ombro, o Motorola pesava o mesmo. Na garganta, os dois círculos ainda estavam cor-de-rosa.

Duas semanas depois houve prova de vinhos para os intermediários de Madrid. Eu servia. Ele assinava as notas. O branco ficou-me na boca a noite toda, ácido, misturado com o gosto que eu ainda tinha debaixo da língua. Quando o último carro saiu, o salão ficou com as luzes baixas e as garrafas no vidro frio.

«Fica», disse ele.

«Ainda há mesa no recinto.»

«Uma.»

Encostou-me ao frigorífico das garrafas. O vidro gelou-me as omoplatas através do vestido. A mão subiu-me por baixo do tecido de anfitriã. Desviou a calcinha para o lado. Meteu-me dois dedos na cona de um só movimento. Eu já estava molhada. Ele sentiu. O polegar achou o clitóris e ficou ali, a pressionar, sem pressa.

«Afonso.»

«Diz se paro.»

«Não pares. Olha para a porta.»

Os dedos entraram até ao fundo. O polegar fez círculos curtos, molhados, o som alto demais para um salão com as luzes ainda acesas. Agarrei-lhe o ombro. A coxa tremeu. Escorreu-me até meio da perna, quente contra o frio do vidro. Estava a um segundo. O corpo pediu o resto. Ia gozar de pé, de costas para as garrafas de Madrid, com o rádio mudo a um palmo da boca dele.

Passos no corredor. O sommelier. Voltava a buscar uma caixa esquecida.

Afonso tirou os dedos. Eu puxei o vestido para baixo. Os dedos dele ainda iam brilhantes. Enfiou a mão no bolso. O sommelier entrou com a chave e um sorriso profissional. Cumprimentou. Levou a caixa. A chave tinou. Saiu.

Atravessei o salão a sorrir. A coxa ia molhada. Escorria-me por dentro do tecido, a cada passo, o vestido a colar. Cumprimentei a mesa que tinha ficado. Disse o nome do vinho. Disse a colheita. Ninguém olhou para baixo. O poder dele era a escala. O meu era fingir que nada tinha acontecido, com a cona a pulsar e os dois dedos dele ainda no ar entre nós. No ombro, o rádio ficou calado. No canal dois, a mãe ainda não tinha pedido o relatório da prova.

«Amanhã», disse ele quando passei.

«Amanhã é o conselho», disse eu.

Os dois sabíamos o que isso queria dizer. Saí pelo corredor de linho com o vestido colado à coxa e o sorriso intacto.

No fim de semana usei as chaves do armazém como desculpa. O anexo familiar ficava no sapal. A cozinha cheirava a limão e a mármore frio. Ele fechou a porta. Eu pus as chaves em cima da pedra, ao lado do jarro que eu ia levar para a mesa da mãe.

«Não temos muito tempo», disse eu.

«Eu sei. Ela chega às duas.»

Sentou-me no mármore. As coxas arrepiaram. Ele ajoelhou. Puxou-me a calcinha até aos tornozelos. Lambeu-me a cona com a língua larga, de baixo para cima, a abrir-me com os polegares. Entrou com a língua. Achou o clitóris e chupou, molhado, barulhento, o nariz contra o púbis. Fechei o punho num guardanapo com o monograma M. O corpo dobrou. Gozei com o punho fechado no pano e um som que o mármore engoliu. As pernas tremeram-lhe contra os ombros. A palma dele segurou-me a anca para eu não cair da pedra.

Virou-me. Encostou-me ao balcão. Abriu-me as pernas com o joelho. Meteu o pau na cona de uma vez, até ao fundo, o ar a sair-me da boca contra o mármore. Fodeu-me por trás. A mão na nuca. A outra na anca. O mármore batia-me nas coxas a cada embate. Pedi mais. Deu mais. O rádio no ombro batia contra a pedra, mudo, e mesmo assim eu ouvia o canal dois na cabeça, a voz dela a pedir números.

«Aqui», disse eu. «Não dentro. O almoço.»

Saiu e gozou-me nas coxas. A porra bateu no púbis, quente, aos jactos. Escorreu. Entrou pelo vestido. Ficou pegajosa na pele, a descer até ao joelho. Puxei a farda para baixo. Ele limpou a boca com as costas da mão. As chaves continuavam ao lado do jarro.

Quarenta minutos depois eu servia água no almoço do conselho. A mãe dele estava à cabeceira. O vestido colava. O rasto dele ia quente por baixo da farda, a secar entre as coxas cada vez que eu me inclinava para encher um copo. Enchi o dela. Ela olhou para mim.

«Pensas ficar o inverno, María?»

Não respondi. Sorri o sorriso de anfitriã. Passei o jarro. Afonso estava dois lugares à direita e não me olhou. O voto dela estava sentado à mesma mesa. O Motorola no meu ombro fez um clique seco. Canal dois. Ela ainda tinha o rádio no colo, ao lado do guardanapo. Voltei à cozinha com as coxas a colar uma na outra e o pano monogramado ainda húmido na palma que ninguém via.

O ensaio do casamento privado foi numa tarde de sal. A cabana de arrumos cheirava a lona e a sal cristalizado. Os convidados estavam na areia a vinte metros. O cordão vermelho marcava o recinto. Fui buscar gelo. Ele puxou-me para trás da lona.

«Se me ouvem», disse eu.

«Então cala-te.»

Não era cruel. Era o jogo que os dois tínhamos escolhido, ali, com a lista do catering ainda na outra mão. Acenei. Ele puxou-me o vestido até à cinta. Abriu-me a coxa com a palma. Meteu o pau na cona de pé, de um só empurrão, e a outra mão tapou-me a boca. Fodeu-me contra o pilar da cabana. O sal raspou-me os ombros. Gemi para a palma dele. Segurou. Podia ter-lhe puxado o pulso. Não puxei. Cada vez que os convidados riam, ele metia mais fundo. Cada vez que eu molhava o pau inteiro, a mão apertava.

Uma cadeira arrastou na areia. Ele não parou. A mão na boca apertou. Gozei no pau dele quando um flash de fotógrafo rebentou do lado de fora da lona. A luz entrou pela fresta, branca, um segundo inteiro no meu joelho nu e no quadril dele. O corpo fechou. Gozei com ele ainda a foder, a palma a calar o som, a cona a apertar-lhe o pau aos solavancos. O gelo derretia no balde ao nosso lado.

Saiu. Puxei o vestido. A cona ia molhada e aberta, o vestido a colar outra vez. Voltei ao cordão vermelho como se tivesse ido buscar gelo. Trouxe o balde. Sorri à noiva. Ninguém perguntou o atraso. O risco já não era só a cláusula. Era uma fotografia. Era um convidado com o telemóvel virado para a cabana. Era o clube. Era o conteúdo que eu montava com aquelas noites. O outro vencimento. A mãe dele nunca ia perceber.

Afonso passou por mim com a lista do catering.

«O gelo chegou», disse eu.

«Chegou», disse ele.

O sal ainda me raspava por baixo da alça. Os círculos na garganta estavam outra vez cor-de-rosa. Não os tapei.

Depois do serviço a sala de jantar ficou apagada. A última mesa tinha ainda a toalha. Ele disse-me para sentar. Sentei. Ficou entre as minhas pernas, já duro, a desviar-me a calcinha com o polegar como se ainda estivéssemos no frigorífico das garrafas.

«A minha mãe encontrou o teu clip na gaveta do escritório», disse ele. «Deu-me o ultimato. Corto o teu contrato ou perco o voto.»

«Estás a dizer isto agora.»

«Estou. Enquanto ainda posso.»

Entrou em mim frente a frente. Devagar. Caro. O pau encheu a cona até ao fundo e ficou, a latejar, os ossos dele contra os meus. Agarrei a toalha. Moveu-se lento. Cada embate pedia uma resposta que eu não ia dar. O rádio no ombro estava ligado. O canal dois, por uma vez, não falava.

«Amanhã o teu nome sai da escala», disse ele. Ainda estava dentro.

Não pedi para ficar. Ele não prometeu. O corpo tremeu. O meu também. Fodeu mais fundo, a púbis a bater-me no clitóris, a toalha a escorregar. Gozei a ouvi-lo dizer o meu nome fora da lista. A cona puxou-o. As unhas foram-lhe às costas da camisa. Gozou dentro de mim enquanto ainda falava. A porra veio quente, aos pulsos, a encher-me até transbordar para a toalha. Senti. Segurei-lhe os ombros e não pedi nada.

«Madrid», disse eu.

«Madrid», disse ele.

Ficámos assim. Ele ainda dentro. Eu ainda aberta. A sala cheirava a cera e a vinho. O rádio no ombro fez um clique e ficou mudo. Ninguém falou no canal dois. Podia ter-lhe pedido a escala de agosto. Não pedi. Ele podia ter dito que lutava pelo voto. Não disse. O preço não se cobrou no orgasmo. Cobrou-se no silêncio a seguir.

Levantei-me. O vestido desceu. A cona ia cheia, a escorrer-me pela coxa dentro da calcinha. Saí pela porta de serviço sem olhar para a mesa. Ele ficou a abotoar a camisa à luz de um candeeiro só.

De manhã a escala estava impressa sem o meu nome. O de Afonso estava no contrato de Madrid com o visto da mãe. Perdi o vencimento de agosto. Perdi as últimas galas. Perdi a filmagem que ia pagar o próximo sítio. Ele ficou com o clube profissionalizado. Ficou sem a única pessoa no recinto que não lhe falava como herdeiro.

Apanhei o autocarro para Lisboa. O rádio ia na mala. Nunca o devolvi. O Motorola ainda tinha o clique seco no ombro da memória. Canal dois. Uma notificação antiga. Não abri.

Ele assinou. Eu não expliquei a partida. Nunca explico. O que quebrou foi a temporada. Foi o voto. Foi a mentira de que éramos só recinto. O vestido preto ia na mala com o bolso do microfone vazio. Os dois círculos na garganta já tinham desaparecido. No fundo da mala o clip dourado não estava. Estava numa gaveta em Comporta. Ou num dossier azul. Não perguntei.

A estrada saiu do pinhal. O autocarro fez a curva. Pousei a cabeça no vidro. Não mandei mensagem. O querer tinha-se gasto em papel timbrado, não na cama. Em Lisboa ia haver outro salão. Outro ombro. Outro contrato. Não ia dizer o nome dele a ninguém. Ele não ia dizer o meu no conselho. A Comporta ficou para trás com o cheiro a lixívia e a linho quente. Fechei os olhos. O autocarro avançou.