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Nightfolio

A Vizinha Deixou a Tranca Aberta

Eu tinha quarenta e um anos, uma aliança que me queimava o dedo no calor de agosto, e a vizinha do 4B — Isabel, vinte e três, modelo, Caracas no sotaque e feijão-preto no colador — deixava a tranca aberta como quem manda entrar. O meu marido saía a pedalar ao domingo. O condomínio ia votar-lhe o contrato. Eu ainda dizia que ia só recusar um prato.

Domingo, sete da manhã. O Rui já tinha saído. As sapatilhas de estrada ainda deixavam borracha no hall. Eu desci com o saco do reciclado pelos quatro lances, quarenta e um anos, a aliança já marcada no calor de agosto. O pátio interior estava quente. Cheiro a alho. Cheiro a feijão. A torneira pingava no tanque do fundo.

Isabel Mendez lavava feijão-preto no colador verde. Vinte e três. Regata branca colada no peito. A água descia-lhe pelo pescoço e apertava o pano nos mamilos. Eu parei com o saco no quadril. Ela não disse o nome. Não deu biografia. Ergueu o colador na minha direção.

«Prova.»

Eu era vogal. Terça o condomínio ia ouvir queixas de música e de cheiro contra o 4B. O voto dela cabia na minha pasta. Aproximei-me mesmo assim. Ela segurou-me o pulso e puxou a mão até à boca. Um grão. Sal. Alho. Os lábios fecharam na ponta do meu indicador e não soltaram na hora. Os olhos dela pediam companhia, não explicação.

Fiquei perto demais. O peito subia contra a regata molhada. Vi o mamilo escuro. Vi a água a correr pela clavícula. Ela não recuou. Eu também não. A boca ficou a um sopro da minha. Senti o calor. Quase beijei. Quase deixei. A aliança girou no dedo até queimar a pele.

O elevador abriu com um estalo.

A senhora Lurdes do 2A saiu com o saco do pão. Olhou o colador. Olhou as nossas mãos. Disse bom dia. Isabel soltou o pulso. Eu mordi o obturador esquerdo até o gosto a metal encher a língua. A senhora Lurdes atravessou o pátio sem apressar o passo.

«Terça tem reunião,» eu disse, porque precisava de uma frase que não fosse a boca dela.

Isabel limpou as mãos na regata. O pano ficou transparente.

«Então prova outra vez antes.»

Subi. No 4A a pasta do condomínio estava aberta em cima do mármore. Ponto 4B. O panfleto do loft do sexto, doze mil de sinal já pagos, preso com elástico ao molho de chaves. Olhei para aquilo. Pensei no grão. Pensei no voto. Pensei que ainda podia descer e recusar o prato.

A tranca do 4B estava aberta. Empurrei com o ombro, ainda com o gosto a feijão na boca. Isabel não explicou a comida. O prato a mais estava no mármore, vapor a subir. Ela empurrou o prato para o lado e empurrou-me contra o Bosch. A porta do frigorífico bateu nas minhas omoplatas. A boca dela chegou à minha desta vez. Dentes. Língua. Beijei de volta e senti a aliança a arranhar o puxador do congelador quando ela puxou a minha mão para cima.

«Tira.»

Tirei a calcinha até ao joelho. Ela ajoelhou no ladrilho quente. Abriu-me as pernas com as palmas. Lambeu a buceta de baixo para cima, lenta, e depois cravou a língua no clitóris. Agarrei-lhe o cabelo. Ela meteu dois dedos. Depois três. Fodeu-me até os nós baterem. Gozei na boca dela com um som que não era palavra. Ela não recuou. Engoliu. O queixo ficou brilhante. Escorri-lhe pelo pescoço.

Pegou na minha mão e pôs os meus dedos na cicatriz da coxa interior, um traço claro que o calor deixava em relevo.

«Já comeu?»

Abanei a cabeça. A aliança ficou enganchada no puxador. Podia tirá-la. Não tirei. Ela lambeu-me outra vez, três dedos no mesmo ritmo, o polegar a circular o clitóris até eu gozar de pé, a calcinha a prender os joelhos, as coxas a tremer contra a cara dela. O Bosch zumbia. Mordi o obturador para não gritar o nome.

Ela levantou-se. Beijou-me com a boca suja. Provei o meu próprio gosto e o metal ao mesmo tempo.

«Fica o prato,» ela disse.

Puxei a calcinha. Saí com o cheiro na cara, na mão, no colo da camisa. Fechei a porta do 4B sem trancar. No 4A o panfleto do loft estava onde o tinha deixado, elástico no molho, doze mil a olhar para mim de papel. Lavei o prato que não comi. Não lavei a boca.

Terça, rés-do-chão, reunião curta. Queixas de música depois das onze. Queixas de cheiro a alho no pátio. Não defendi o 4B. Não ataquei. Anotei. A senhora Lurdes falou do saco do pão e do colador. Senti o obturador na língua o tempo todo. O ponto do arrendamento 4B ficou para a assembleia de setembro. Fechei a pasta. O poder ainda estava nas minhas mãos. Já sabia o preço de o gastar.

À noite a parede de estuque deixou passar a torneira. Depois o gemido. Deitei-me na cama. O Rui dormia de lado, respiração pesada de quem pedala ao domingo. Encostei a orelha ao estuque. Isabel abriu a janela do quarto para o pátio. A silhueta dela cortou o vidro. Pernas abertas. Mão na buceta. Ela tocava-se para ser vista. Para ser ouvida. O gemido vinha com a água. Meti a mão por baixo da calcinha. Dois dedos. O clitóris inchado ainda da manhã no Bosch. Gozei muda, dentes cravados no obturador, metal e saliva. O corpo dela no vidro não parou. Ela gozou depois de mim, a cabeça para trás, a torneira a correr como se nada.

O Rui virou-se. Beijou-me a boca. Abri os lábios. Ele não perguntou o cheiro. Não lavei os dedos. Deixei a mão no lençol, húmida, entre o casamento e a parede. Podia ter fechado a janela do nosso lado. Não fechei. Escutei a torneira até ela parar. Isabel não veio à porta. Não precisava.

Quinta, vinte e três e quarenta. Escadas entre o quarto e o quinto. Isabel puxou-me pelo pulso para o patamar da claraboia. O peitoril frio nas minhas nádegas. A mão dela entrou por baixo do vestido sem pedir com palavras.

«Aqui?»

«Aqui,» eu disse.

Dois dedos até ao fundo. Polegar no clitóris. Pinguei-lhe no pulso. A saia subiu. Quase penetração de pé, a coxa dela entre as minhas, o mosaico a roçar o calcanhar. Agarrei o corrimão. Ela fodeu-me com os dedos no corredor do prédio, pública, húmida, a claraboia a deitar um quadrado de luz suja no chão. Ia gozar. Ia deixar. O custo atravessou o tesão: se a senhora Lurdes subisse com o pão, o 4B caía na acta. Não afastei o pulso dela.

A corrente da porta do 5B rangeu.

Isabel tirou os dedos. Lambeu-os no escuro, um a um, sem pressa de quem já tinha o gosto. Desceu sozinha, os pés nus no lanço. Fiquei com a calcinha encharcada até ao 4A, o vestido a colar nas coxas. Fechei a porta. O Rui ressonava. Não me mudei. Sentei-me no hall interno e senti o pulso dela ainda dentro, fantasma.

De manhã a acta estava na caixa do correio. Ponto arrendamento 4B sublinhado a azul. A minha letra da terça. Abri o envelope na cozinha, a aliança a bater na loiça, e li o meu próprio nome no rodapé. A vogal. A mulher que anota. A que tinha gozado no peitoril e deixado a vizinha descer com os dedos na boca.

Sábado, vinte e três horas. Lavandaria do rés-do-chão. A Siemens no ciclo de centrifugação, vidro embaciado, tambor a tremer no ladrilho. Isabel sentou-se em cima da máquina quando eu fechei a porta. A camisa de reunião ainda ia no meu corpo, a mesma da terça. Ajoelhei. Abri-lhe as pernas. A buceta dela já estava inchada. Lambi. Chupei o clitóris. Desci até ao cu e meti a língua. Ela segurou-me a cabeça. O calcanhar cravou-me nas costas. Dois dedos na buceta, língua no cu, o tambor a bater o ritmo. Ela gozou com um grito curto, molhou-me o queixo e o colo da camisa. O tecido da reunião ficou escuro. Não levantei a cara. Continuei. Ela gozou outra vez, o corpo a recuar no vidro embaciado, a máquina a tremer-lhe no rabo.

Passos no hall.

Vestimo-nos mal. A calcinha dela ficou do avesso. A minha camisa ficou aberta num botão. A cesta amarela no chão não era nossa. Cesta da senhora Lurdes, uma toalha riscada a espreitar. Alguém vinha buscá-la. Limpei a boca com o verso da mão. Isabel riu baixo, o riso de quem convida a hora seguinte.

«Sobe.»

«Não posso ser vista assim,» eu disse.

«Já foste.»

Subimos pelos lanços sem nos tocarmos. No 4A o panfleto do loft continuava no mármore. Pendurei a camisa no estendal da varanda, o colo ainda com o cheiro dela, e pensei na cesta amarela à espera de uma mão que não era a nossa. O prédio inteiro podia ter descido. O voto ainda era meu. O gosto dela ainda era meu.

O Rui ficou três noites no Porto. Trabalho. Isabel entrou no 4A com o mesmo convite de cozinha, sem prato desta vez. Foi ao quarto do casal como quem já conhecia o soalho. Tirou a camisa. Tirou a minha. Empurrou-me para o chão.

«Abre a boca.»

Sentou-se na minha cara. Buceta na boca. Cu a pedir língua. Segurei-lhe as coxas. A cicatriz debaixo do meu polegar. Lambi o que ela pôs em cima. Ela fodeu a minha língua, vai e vem, até gozar escorrendo-me pelo queixo outra vez. Depois virou. Três dedos na minha buceta, até ao fundo, até escorrer no lençol bordado da mãe. Gozei com o punho dela a bater. Gozei outra vez. O lençol ficou escuro entre as pernas.

Deitou-me no colchão. Esfregou a buceta na minha coxa, molhada, o clitóris dela no osso, o meu no ar até ela baixar a mão e me acabar. A aliança foi parar à boca dela. Ela mordeu o ouro. Gozei com o metal entre os dentes dela. Os gozos um em cima do outro. O aro de ouro da orelha dela caiu no lençol. Vi o brilho. Não o apanhei.

O panfleto do loft estava na mesinha, do lado do relógio do Rui. Doze mil. Sexto andar. A vida que a vogal tinha comprado com a cabeça fria. Isabel beijou-me o peito e perguntou se eu já tinha comido. Disse que sim com a boca cheia de nada. Ao amanhecer o aro continuava entre os lençóis. Vi. Deixei. Vesti-me por cima do cheiro. Ela saiu descalça para o 4B. A parede de estuque voltou a ser só parede até a torneira abrir do outro lado.

Véspera do voto. Estúdio na Ferreira Borges, depois das vinte e uma. Isabel chegou como quem já está na cozinha. Pediu companhia. Só depois nomeou o voto. Eu, quarenta e um, senti o poder a vazar-me pelas mãos em cima da mesa de corte.

«Preciso que fiques,» ela disse. «Depois precisas de dizer o que já sabes.»

Deitei-me de costas entre os tecidos. Ela puxou-me a calcinha, encharcada outra vez, e meteu-ma na boca. O gosto era meu. Comeu-me a buceta com a calcinha a calar-me, três dedos, língua no clitóris, até eu gozar com os olhos no teto do estúdio. Depois cavalgou a minha coxa. Esfregou-se até gozar no meu ventre, quente, viscosa, a mão no meu peito. Tirou-me a calcinha da boca.

«Vota a favor.»

«Voto,» eu disse.

Segunda, assembleia. Li sem queixas procedentes. O 4B passou. Provei metal o tempo todo, obturador, aliança, a boca dela de dois meses em seis semanas. A senhora Lurdes assinou. Eu assinei. Isabel ficou com a casa por causa da minha boca.

Manhã seguinte. O Rui encontrou o aro no lençol bordado. Não neguei. Não encenei. Ele saiu com o saco de ginásio. O banco confirmou que o sinal do loft não voltava. Os doze mil ficaram no papel que eu não rasguei. Fiquei sozinha no 4A, a aliança ainda no dedo, a ouvir a torneira da Isabel através do estuque. Casa salva do outro lado da parede. Casamento e loft pagos deste.

Caracas-born, twenty-three. Came to modeling through festival dancing. Treats culture as something you step into with her, not something she explains.

TabuMuito explícito9 min de leitura1946 palavras

Avisos de conteúdo

  • Infidelidade
  • Diferença de idade entre adultos
  • Voyeurismo
  • Desequilíbrio de poder
  • Risco de exposição pública

Esta é uma obra de ficção. Cada personagem é um adulto fictício de 18 anos ou mais.

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